quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A facilidade da manipulação


Acredito que um dos vídeos mais assistidos no Brasil a semana passada foi o do policial militar que, ao ser ameaçado com uma arma por um assaltante, rapidamente deu dois tiros no rapaz, que não morreu porque as balas não atingiram nenhum órgão vital. A ação, claramente vista como legítima defesa, foi merecedora do apoio da corporação e do governo paulista. O oficial inclusive recebeu, na última sexta-feira, a Láurea de Mérito Pessoal em 1º Grau, o mais alto da corporação, pelo seu ato de bravura.
Como se diz no jargão popular, “contra fatos não há argumentos”. O policial não atirou em alguém indefeso ou sem motivo algum. Por isso, a imagem dele se defendendo foi partilhada milhares e milhares de vezes, em 99% delas com comentários elogiando sua atitude, sendo alguns mais exaltados lamentando que o assaltante não tivesse morrido. Não sou a favor de execuções sumárias, mas entendo o clamor, afinal, hoje vivemos em um estado onde voltar para casa com vida é uma questão de sorte, haja vista a violência que tem dominado São Paulo nos últimos anos.
Mas é claro que, em se tratando de um vídeo de tão grande impacto, logo surgiriam montagens e frases atribuídas aos grupos de Direitos Humanos condenando o policial. A primeira delas, feita por um site de humor, colocou uma foto da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, com cara de choro, com um texto dizendo que ela havia se comovido com o assaltante, que não era culpa dele aquilo ter acontecido, mas sim da sociedade, e que ela iria inclusive procurar sua família para dar apoio, além de pedir judicialmente que a imagem dele sendo baleado fosse retirada do ar. No dia seguinte, uma fala do deputado estadual Major Olímpio (PDT) denunciava o governador Geraldo Alckmin e a PM, afirmando que o oficial havia sido punido por ter baleado o assaltante.
O que me espantou não foram os absurdos propagados nos dois casos, afinal, montagens de fotos, fatos e frases atribuídas a políticos para denegrir suas reputações são a coisa mais comum nas redes sociais. O que ainda me espanta – e nem sei o porquê – foi ver as pessoas partilhando os dois links como verdadeiros, com a gritaria comum que se vê nos dois casos contra PT e PSDB, como se política fosse um jogo de futebol.
Tive o trabalho de, em todos os links falsos que vi partilhados, colocar os desmentidos e as afirmações verdadeiras. Nem Maria do Rosário nem Alckmin jamais falaram qualquer coisa do gênero sobre o assunto, sendo que a postura de ambos foi a mesma: a ação havia sido legítima. Para minha surpresa, quase ninguém apagou as postagens falsas de suas timelines nem colocou os desmentidos. O que valia era provocar a polêmica. Se os links eram mentira ou verdade, o que importa é propagar aquilo em que eu acredito. O mais espantoso: essas mesmas pessoas se avaliam como “formadoras de opinião”. Para mim, estão bem longe disso, mas muito próximas a “formadoras de mentiras e manipulação”.

2 comentários:

dandonota.com disse...

Andrea, interessante ler sobre isso. Não sei em que mundo estava semana passada, mas fiquei por fora dessa polêmica no mundo virtual, apenas ouvi muitos e muitos comentários de pessoas próximas, todas apoiando o lado da "defesa", da autoridade policial. Mas num ponto causa espanto: os que defenderam a honra, a dignidade, a autoridade, todos estão ligados aos meios de comunicação. Causa mesmo espanto.

Déa disse...

Rodrigo, eu mesma defendi a ação policial. Não é questão de ser autoridade, simplesmente o cara ia atirar e o policial se defendeu, nem tem o que discutir, o vídeo mostra isso. Me causou muito mais espanto as pessoas disseminarem mentiras mesmo sabendo que eram mentiras.