quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Valorizando nossos acertos

Chegamos juntos mais uma vez a um fim de ano. Quando comecei a escrever nesse espaço, em junho de 2009, jamais imaginei que ele se tornaria um cantinho tão especial para mim. Toda semana me pego pensando em que mensagem quero passar aos meus leitores, sem me transformar em dona da verdade. E cada retorno que recebo é um carinho que sempre fazer meu dia ser melhor.
Este ano acaba para mim como “o ano de realizar sonhos”. Viajei para onde sempre sonhei, assisti aos shows que queria, conheci novos amigos, de alguns me afastei, perdi uma grande amiga, ganhei mais experiência. Na soma de tudo, posso dizer que foi um ano extremamente especial. Mais que isso: foi um dos melhores anos da minha vida.
Quando chega essa época sempre começamos a fazer um balanço daquilo que aconteceu ao longo dos últimos 12 meses. Percebo uma atitude comum à maioria das pessoas: nessa avaliação, sempre ficamos nos questionando e buscando respostas ao por que erramos em determinada situação. Remoemos os erros, sempre com a justificativa de que “não podemos esquecê-los para não repeti-los”. E valorizamos demais aquilo que não podemos mais mudar.
Temos sim de avaliar nossos erros para não repeti-los. O problema é que acabamos nos esquecendo de lembrar os nossos acertos e valorizá-los. Esquecemos que eles fazem parte também da nossa vida cotidiana e, quanto mais acertamos, menores são as chances de errarmos novamente. Ficamos tão preocupados em não repetir erros que não nos lembramos de repetir os acertos. Nossas experiências de sucesso acabam não valendo tanto quanto nossas memórias de fracasso, que ficam ali, pairando, como que para nos atormentar com aquilo que podíamos ter feito da melhor maneira – e deixamos de fazer.
Usando o velho clichê, “errar é humano”. Quando erramos, temos duas opções: tentar consertar o erro ou se desculpar por ele; ou lamentar o que houve e seguir em frente, sem ficar revivendo em todo momento o que houve. “Se eu tivesse”, “se eu pudesse”, “se eu não fosse” são frases comuns quando pensamos nas burradas que fazemos. O único problema é que esse condicional não existe, simplesmente porque já está no passado, e não temos como retornar a ele.
Por isso, em 2011, que todos nos possamos acertar mais do que errar. Quando errarmos, que possamos aceitar nossas falhas sem nos martirizarmos. Quando acertarmos, que saibamos valorizar nosso sucesso na medida certa, sem nos julgarmos perfeitos. Que nossos erros passados fiquem em 2010, e que nossos acertos cheguem a 2011 como parte de nossa experiência, para que nos tornemos pessoas melhores. Podemos não fazer a diferença todos os dias, mas deixo aqui uma reflexão: se cada um de nós puder deitar a cabeça todo dia no travesseiro e pensar que não prejudicou ninguém, já será um grande avanço para toda a humanidade. Feliz Ano Novo!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Hora de confraternizar

Chega essa época do ano, principalmente nas duas semanas que antecedem o Natal, e as famosas confraternizações tomam conta de todos os lugares. Bares, restaurantes e pizzarias ficam lotados com grupos de amigos ou apenas colegas de trabalho que se reúnem para tomar uma cerveja ou fazer a troca de presentes do amigo secreto.
Na última quarta fiz parte do grupo que se reúne apenas para confraternizar. Pude observar que em todas as mesas do bar o espírito era de rir, apenas falar de coisas boas, trocar abraços e expressar desejos de tudo de bom no Natal e melhor ainda no novo ano que se aproxima. Não tem como fugir até mesmo da emoção e choro ao abraçar algum amigo mais querido (principalmente depois de alguns chopes!).
Confraternizações fazem parte das tradições natalinas tanto quanto o Papai Noel e a árvore de Natal. Parece que nesta época todo mundo vira amigo, os problemas são esquecidos, as mágoas e ressentimentos desaparecem. Mas, no fundo, todo mundo sabe que não é bem assim. Passado esse período festivo, os ressentimentos voltam, as mágoas ressurgem, os amigos afastados, que prometeram estar mais presentes, somem novamente, e a rotina continua, como se o momento mágico das confraternizações nunca tivesse existido.
Sempre penso em por que não podemos ter confraternizações o ano todo. Afinal, confraternizar significa “comemorar com outras pessoas”, “viver fraternalmente, partilhando os sentimentos, crenças, ideias de outrem”. Não acho que precisamos esperar o Natal nem o Ano Novo para entrarmos nesse espírito. Penso que, sempre que as chances surgem, devemos confraternizar.
Por isso acho interessante que, quando convido todos os amigos para sair, eles perguntam: o que estamos comemorando? Em alguns casos, estamos mesmo celebrando algum evento, um aniversário, uma viagem, um retorno, um emprego novo. Mas, na maioria delas, gosto de reunir meus amigos apenas pelo simples prazer de estar com eles. E não precisa ser fim de semana. Pode ser uma segunda-feira em que sinta vontade de encontrá-los. Meus sentimentos pelas pessoas que amo não precisam de dia e hora marcada para se manifestarem.
Hoje à noite estaremos com nossas famílias celebrando o Natal. Ou seja, estaremos confraternizando, trocando presentes, deixando mágoas de lado, esquecendo os ressentimentos, e nos permitindo sentir apenas o prazer de estar com os entes amados. Talvez seja hora de deixarmos que esse espírito de confraternização se espalhe ao longo do ano. Afinal, qualquer dia é importante para estar entre pessoas queridas, celebrando a vida. Um Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Quer mentir? Faça bem feito!

O ditado “mentira tem perna curta” cai como uma luva para mim. Não que eu seja a mentirosa nata e acabe sempre sendo pega no flagra. Mas geralmente acabo descobrindo quando as pessoas mentem para mim. E nem preciso fazer esforço para isso: a verdade chega de repente, me abrindo os olhos para coisas que às vezes eu nem imaginava.
Uma das coisas que mais abomino é a mentira. E sei que todo mundo mente. Muitas vezes acabamos contando alguma mentira leve para evitar um problema maior. Algumas pessoas chamam isso de “mentira branca”. É aquela que contamos quando sabemos que não vai prejudicar ninguém e até mesmo evitar a mágoa de uma pessoa querida.
Porém, o inaceitável para mim é a mentira sem necessidade, ou a que prejudica o outro. E o mentiroso nato faz isso sem o menor remorso. Pior ainda, quando é descoberto, continua mantendo a farsa e se acha no direito de se sentir ofendido quando confrontado com a verdade.
Conheço muita gente assim. Conta mentiras de tudo que é tipo: seja para se fazer de vítima, ou para dizer que é esperto, ou para ser o bom em tudo. Nunca mede as consequências das lorotas que espalha, sem se preocupar se aquilo pode se tornar algo maior ou vai magoar alguém.
Este ano tive uma decepção com um amigo que, a despeito de eu considerá-lo um irmão, mentiu descaradamente para mim e, quando o confrontei com a verdade, manteve tudo que havia dito, ajudado por outra mentirosa nata. E continuou com esse posicionamento, preferindo perder a minha amizade (que nem devia ser importante, hoje avalio) a admitir que havia feito uma besteira gigante ao tentar me fazer de idiota.
Porque esse é o maior problema da pessoa mentirosa: ela subestima a inteligência de todos em sua volta, considerando-se mais esperta, e nem percebe que, ao longo do caminho, vai entrando em contradição e deixando que as peças da mentira, que estavam tão bem encaixadas (em sua imaginação) acabam se soltando e não se fixando mais.
Depois que uma verdade vem à tona e a confiança quebra, não adianta tentar remendar. É como uma peça de porcelana que a gente tenta colar quando ela se parte: por mais bonita que ainda fique, é possível perceber a linha onde foi feito o conserto. E essa linha fica sempre ali, para mostrar que o objeto não é mais original. Assim fica qualquer relacionamento quando uma mentira é descoberta: pode até se manter, mas aquela sensação incômoda de desconfiança dificilmente vai embora, principalmente quando o outro não admite seu erro. Por isso, sempre digo: quer mentir? Então faça bem feito, ou arrisque a perder um dos bens mais preciosos que possuímos: nossa honra.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Assumindo nossa culpa

A banalização do sexo, em todos os sentidos, chegou a um ponto em que estupro de mulher bêbada é considerado normal, “afinal, quem garante que ela não queria isso mesmo?” Os conceitos machistas que tanto criticamos estão enraizados na sociedade brasileira há séculos e, a despeito de os jovens de hoje agitarem uma bandeira de modernismo nesse aspecto, o que vemos sempre é a colocação da culpa na mulher quando qualquer acontecimento envolvendo sexo é jogado na mídia.
Em hipótese alguma concordo com o machismo de que somente o homem tem direito a fazer o que bem entender entre quatro paredes, e a mulher deve se preservar pura e sagrada até encontrar o príncipe encantado (até porque ele não existe, vamos e convenhamos!). Mas temos nossa parcela de culpa nesses conceitos tão arraigados quando não nos damos ao respeito. E entendo por respeito não o comportamento adotado dentro do quarto, mas sim aquele que adotamos em todos os outros momentos da nossa vida.
Quando uma mulher deixa que um homem a trate como objeto, ela deixa que ele pense que todas as outras são assim. Quando permito que um homem me diga, em cruas palavras, que quer me levar para cama e curtir apenas uns momentos, permito que ele pense que sou apenas um objeto de desejo. Pior: permito que ele pense que não tenho valor algum, e por isso sou descartável.
Não vamos ser hipócritas e fingir que o sexo casual não acontece. Existem mulheres perfeitamente bem resolvidas nesse aspecto e que, quando estão sozinhas, se dão ao direito de exercitarem sua sexualidade sem que haja a necessidade do compromisso. O que diferencia essas mulheres daquelas tratadas como objeto é que elas sabem com quem sair e não deixam que qualquer homem dite as regras, como se estivessem disponíveis a qualquer minuto. Por isso, buscam para esses momentos apenas homens bem resolvidos, que sabem o verdadeiro valor de uma parceira – mesmo que seja por apenas umas horas.
Vejo muitas mulheres carentes que se sujeitam a saídas rápidas, entre um compromisso e outro do parceiro, na esperança de que esses momentos fugazes se transformem em um namoro. Ledo engano. A grande oferta determina o valor do produto: quanto mais abundante, menor o seu preço. Acho interessante essas mulheres justificarem seu comportamento, dizendo que também estão aproveitando. Mas constato que, ao contrário delas, que desmarcam qualquer outro compromisso quando os “ficantes” ligam, eles não abrem mão de nenhum evento com os amigos para sair com elas. Ou seja, o equilíbrio não existe. O sexo sem compromisso existe – mas quando a vontade dele se manifesta. A dela, é problema dela.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Um passeio pela História

Antes de sair em férias contei aqui que iria realizar o sonho da minha vida: conhecer as pirâmides do Egito. Já de volta, acabei me dando conta de algo que, sem querer, eu planejei e fiz: um passeio pela História, que tanto amo e considero uma boa base para minha formação jornalística.
Visitei símbolos históricos que, quando estudamos História na escola, vemos nos livros e imaginamos o que realmente aconteceu naqueles lugares. O Parthenon, em Atenas, no alto da Acrópole, é um monumento erguido em homenagem à riqueza que permeava aquele período da Grécia. Um pouco daquela magia está estragada pelos andaimes dispostos no local e por uma escada de madeira, mas ainda assim é possível imaginar Sócrates andando por ali com seus discípulos.
As pirâmides são de tirar o fôlego. Imensas, elas possuem uma imponência incomparável a qualquer outro monumento. A Esfinge também nos mostra toda a modernidade de um povo que, há dois mil anos, tinha conhecimentos de Engenharia que até hoje intrigam pela sua perfeição.
O Coliseu, palco de tantas mortes e espetáculos sangrentos, não tem aquela aura pesada que muita gente imagina. Muito pelo contrário: ao caminhar por aquelas ruínas e olhar do alto a arena onde tantos gladiadores perderam a vida, o que me chamou a atenção foi a grandiosidade de um lugar que representou todo o apogeu de Roma, que era na época um império invencível.
Em Israel, os lugares históricos considerados símbolos do Cristianismo são muito bem guardados. Em cada ponto importante da vida de Cristo, uma igreja foi erguida. Porém, uma coisa me decepcionou bastante neste passeio: o comércio, presente em todas as igrejas e locais sagrados. A Via Dolorosa me pareceu uma 25 de Março um pouco mais organizada e sem tanta gritaria. Se Cristo voltasse para esse lugar, novamente iria expulsar os vendilhões do templo.
A despeito da beleza dos lugares e de todo o simbolismo que eles representam, não consegui me emocionar nem mesmo no Muro das Lamentações, mas me impressionei com cristãos, judeus e muçulmanos rezando todos juntos, alguns em transe. A emoção que tanto queria sentir veio quando fui batizada no Rio Jordão, um belíssimo lugar que transmite paz e renovação a todos que entram naquelas águas.
Cada foto tirada em todos os passeios traz emoções diferentes, e em minha memória terei sempre os momentos vividos de um sonho realizado. Minha sobrinha mais velha, ao ver minhas fotos, exclamou: “Tia, parece que você está dentro dos livros de História!”. Ela tem razão: nessa viagem, entrei na História que tanto amo. Ainda assim, é bom voltar aos tempos atuais. Como diz a música imortalizada na voz de Elis: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Paul, para sempre inesquecível

Depois de um mês de férias maravilhosas, retorno a minha rotina ainda extasiada por ter assistido ao show de Paul McCartney no domingo, no Morumbi. Ao lado de 64 mil pessoas, cantei, dancei, pulei, gritei e chorei ouvindo sucessos desse senhor de 68 anos que, desmentindo sua idade, manteve a plateia vibrando durante quase 3 horas de show.
Para quem, como eu, sonhava em ver pelo menos um dos Beatles ao vivo, a experiência foi inesquecível. Sir Paul não nega a classe que tem e, simpático o tempo todo, interage com seu público como se fosse íntimo dele. E os fãs respondem a toda simpatia à altura: cantam afinadamente seus sucessos, aplaudem, gritam seu nome.
O que mais me encantou foi ver a mistura entre jovens mal saídos da adolescência, adultos, e senhores sessentões, todos juntos cantando. Não havia espaço para briga, para desentendimento, para nada que pudesse estragar aquele momento mágico na vida de todos que ali estavam. Em compensação, havia espaço de sobra para sorrisos trocados entre as pessoas que, mesmo não se conhecendo, estavam ali unidas pela mesma paixão ao mais famoso dos Beatles vivo.
Ao meu lado, três garotos, de no máximo 22 anos, me mostraram que um ídolo realmente ultrapassa gerações. Mal começavam os acordes das músicas eles sabiam todas as letras, que cantavam a plenos pulmões e, em alguns momentos, choravam emocionados. Não havia como não se contagiar com aquela emoção. Num dado momento, um deles falou, com a voz embargada: “Vou poder contar ao meu filho que vi Paul McCartney ao vivo. Isso, ninguém vai tirar de mim”.
Um dos pontos altos do show, quando milhares de pessoas soltaram bexigas brancas ao som de “Give Peace a Chance”, deixou até mesmo o cantor emocionado. Cada vez que a plateia começava em uníssono a gritar “Paul, Paul, Paul”, era possível sentir a energia positiva circulando pelo estádio todo. Num só lugar, 64 mil pessoas homenageando seu ídolo, dizendo, com aquele grito, o quanto o admira.
Ao deixar o palco, no encerramento do show, o beatle deu um susto na plateia, quando tropeçou e caiu, segurando duas bandeiras do Brasil. Com uma agilidade surpreendente e a famosa fleuma britânica, ele se levantou rapidamente, fez um sinal de positivo, despediu-se do público, e saiu sem deixar de sorrir. Um final digno de um sir, um gentleman, um ídolo. Defino com apenas uma palavra o que para mim representou todo o show e este momento inusitado: inigualável. Paul, para sempre inesquecível.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Realizando sonhos

Desde que aprendi a ler e conhecer o valor da história, tenho o sonho de conhecer as pirâmides do Egito. Visitar os túmulos dos faraós, ver a Esfinge e imaginar como aqueles blocos gigantescos foram colocados tão simetricamente um em cima do outro sempre foram objetivos que um dia eu disse que realizaria.
Finalmente, no próximo dia 3, estarei realizando esse sonho. Planejei durante anos essa viagem. Em 2008, estava com tudo pago quando tive câncer, e tive de adiar o que sempre havia imaginado fazer. Lembro que, ao ter o diagnóstico, que na época era meio sombrio, eu disse ao médico que tinha certeza de que não ia morrer, porque ainda não havia conhecido o Egito.
Sonhos fazem parte das nossas vidas. Existem aqueles atingíveis, e aqueles que sabemos que dificilmente conseguiremos realizar. Ter uma Ferrari, por exemplo. Não é impossível, desde que eu ganhe na Mega Sena ou case com um milionário que resolva me dar esse mimo. Como essas duas possibilidades são muito remotas (mas não impossíveis...), imagino que a Ferrari não vai fazer parte da minha vida. E não sofro por conta disso.
Realizar um sonho nos faz ter vontade sempre de melhorar, crescer, errar, acertar, errar de novo, cair, levantar, brigar, chorar e, finalmente, conseguir aquilo que queremos. Pode ser um simples passeio ao Museu do Ipiranga, conhecer o mar, conquistar o amor da sua vida, gerar um filho, aquele emprego que garanta estabilidade a sua vida. O importante é sempre ter algo a conquistar.
Somos movidos a sonhos, ou conquistas. Não importam o que eles sejam, importam que sejam seus. Para mim, conhecer o Egito sempre foi algo a ser conquistado. Muita gente, quando eu comentava isso, me dizia que tem mil outros lugares mais interessantes e bonitos para se visitar do que um “deserto com um monte de pedra empilhada”. Para quem não ama História, como eu amo, o Egito significa isso mesmo. Para mim, significa visitar uma civilização que sempre me impressionou. Nunca me importei com esses comentários. O sonho era meu. E quem tinha de realizá-lo era eu.
Por isso, seus sonhos são apenas seus. Não se importe se as pessoas acharem seu sonho pequeno, absurdo, inatingível, ou até mesmo medíocre. Lembre-se sempre que a conquista dele vai depender apenas de uma pessoa: você mesmo. Se eu dependesse dos outros, talvez não estivesse agora contando que vou fazer a viagem da minha vida. Esse era meu objetivo. Eu o conquistei. E tem coisa mais gostosa que conseguir algo que desejamos muito?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mentiras disseminadas

Todos os dias recebo em média uns 60 e-mails com os mais diversos teores. Alguns trazem belas mensagens, outros são vídeos engraçados, e tem aqueles pessoais, de amigos querendo saber como estou. Infelizmente, porém, a maioria deles é composta por uma praga que vive enchendo nossas caixas postais: os famosos spams.
Passados pelo menos 15 anos do início da popularização da internet no Brasil, a maioria das pessoas ainda não sabe usar a rede de maneira a diminuir o lixo virtual, e aumentar as mensagens úteis. E nem faz isso por maldade. Simplesmente, as pessoas recebem algo que acham interessante ou que vai beneficiar alguém, e encaminham a todos da lista, dispostos e espalhar uma boa novidade ou conseguir ajuda para quem está passando dificuldade.
Um bom exemplo são duas mensagens que circulam há anos, uma oferecendo vagas gratuitas para tratamento de câncer no estômago, e outra dizendo que há córneas sobrando em Sorocaba. Em ambos os casos, números de telefone para se comprovar a veracidade da história. Ou sou muito azarada, ou os números estão errados, ou não existem: a verdade é que já tentei confirmar essas mensagens, e não consegui falar com ninguém.
Pior que isso são os e-mails sobre seqüestros e desaparecimentos. Há cerca de um mês recebi um sobre uma menina de Piracicaba, encaminhado por uma amiga, que inclusive conhecia os pais da criança. Escaldada pelo tanto de mentiras que já encaminhei pela internet resolvi checar os números de telefone e a veracidade da história. Menos de uma hora depois de ter recebido o primeiro e-mail, recebi uma segunda mensagem, da mesma amiga, dizendo que não tinha havido nenhum desaparecimento ou seqüestro, e pedindo desculpas por ter espalhado uma notícia daquelas.
A pressa em tentarmos ajudar, nesses casos, pode muitas vezes atrapalhar. Atualmente, quando recebo mensagens com títulos como “Ajudem pelo amor de Deus”, “Você não vai conseguir evitar o choro”, ou coisas do gênero, nem leio mais. Até porque a menina russa (ou polonesa, ou croata), cuja foto dela queimada circula pela internet há séculos, já deve estar com uns 15 anos, e não fiquei sabendo de nenhuma campanha do AOL (lembram-se de servidor?) para ajudá-la.
Antes os boatos se disseminavam boca a boca ou, no máximo, por telefone. Hoje, eles contam com uma ferramenta rápida e que tem um alcance de milhares de pessoas ao mesmo tempo. O problema não é espalhar notícias acreditando estar ajudando. O maior problema é não termos mais discernimento do que realmente é ajuda, e o que é puro boato. A hora que conseguirmos fazer essa distinção, o mundo virtual ficará bem melhor.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mudanças essenciais

Esta semana assisti “Nosso Lar”. Independente da crença de cada pessoa, e da qualidade do filme em si (que em alguns pontos fica meio cansativo), a história do espírito André Luiz nos traz uma bela lição de vida, de mudanças profundas e, principalmente, do aprendizado que todas as situações do dia a dia, por mais prosaicas que sejam, podem nos proporcionar.
No filme, o espírito André Luiz, ao chegar ao Nosso Lar, ainda mantém as mesmas ideias terrenas, das quais demora muito tempo a se desapegar. Quando ele consegue enxergar sua nova realidade, passa a ser mais feliz, e entender todos os erros do seu passado. Essa é chave de libertação para sua redenção e para que ele possa visualizar melhor seu futuro.
Todos nós temos princípios aos quais, independentemente das mudanças que ocorrem a nossa volta, nos mantemos apegados. Muitas vezes, não conseguimos enxergar que esses conceitos estão ultrapassados, ou mesmo errados, e ficamos parados em situações que nos param no tempo, ou nos prejudicam. Ainda assim, não conseguimos enxergar que tudo pode ser mudado, se realmente quisermos.
Dizemos que errar é humano, e persistir no erro é burrice. Mas vemos, cotidianamente, amigos, familiares, colegas de trabalho, enfim, pessoas que nos cercam, e nós mesmos, cometendo os mesmos erros, sem perceber que as atitudes que nos fazem mal se repetem por nossa exclusiva escolha. Nosso livre arbítrio existe exatamente para que possamos mudar e evoluir, e não ficarmos parados no mesmo lugar. A dificuldade está em saber usar esse direito de escolha.
Eu já me peguei muitas vezes cometendo o mesmo erro, e depois me arrependendo dele. E novamente cometendo... Sem sequer questionar do por que, mesmo inconscientemente sabendo que aquilo me seria prejudicial, eu ainda assim insistia em me magoar. Sim, porque eu mesma estava me magoando, somente não conseguia sentir isso. E, por mais que as pessoas a minha volta me apontassem que estava errando novamente, eu ficava presa a uma razão inexistente, e fechava meus ouvidos a qualquer argumento que viesse de encontro ao que eu acreditava.
Consegui enxergar esse círculo vicioso. Foi doloroso, mas quando visualizamos o que estamos fazendo, é como se nos libertássemos das antigas ideias e valores e nos abríssemos a mudanças essenciais. Essa abertura nos proporciona a chance de aumentar nosso conhecimento, mudar valores, aprender com os erros do passado e, principalmente, construir um futuro melhor, sem espaço para comportamentos que nos prejudicam.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Aprendendo a ganhar

Uma pesquisa do Procon (Serviço de Proteção ao Consumidor) divulgada ontem aponta que os preços dos medicamentos apresentaram variação de até 523,81% entre os genéricos e de até 100% entre os de referência, em levantamento realizado entre os dias 1º e 3 de setembro na cidade de São Paulo. O levantamento foi realizado em 15 farmácias e drogarias distribuídas pelas cinco regiões da cidade e 52 medicamentos.
Como justificar uma disparidade de preços tão grande? Sabemos que, ao fazer a pesquisa de preço de qualquer produto, devemos levar em consideração o local onde ele está sendo vendido, o atendimento, facilidade de pagamento... Ainda assim, uma variação de mais de 500% não tem a menor lógica. Afinal, os medicamentos são os mesmos, feitos pelo mesmo fabricante, na mesma embalagem.
Essas disparidades ocorrem porque ainda não temos o costume permanente de fazer a pesquisa de preços. Acabamos nos acostumando a comprar no mercado perto de casa, na farmácia onde somos conhecidos, no açougue que nos atende bem. Pesquisar, conferir os preços, verificar as vantagens de se comprar em outro lugar – tudo isso, para a maioria das pessoas, “dá muito trabalho”.
E aí me vem à mente o velho costume (também não tão comum quanto parece) de “pechinchar”. Pedir um descontinho na hora da compra, hábito que deveria ser considerado salutar, é visto como uma vergonha. Afinal, se a pessoa pede desconto, na concepção de muita gente, é porque não pode comprar. Se não pode, nem deveria ter ido ver o produto.
Achamos comum a pechincha na hora de comprar um bem de valor alto, como um carro ou imóvel. Nesse caso, o termo muda: chama-se negociação. E aí nos orgulhamos de ter conseguido um bom desconto, de o preço ter abaixado sei lá quantos por cento, de termos “levado vantagem” na compra.
Mas qual a diferença entre negociar um produto de R$ 1 mil e um de R$ 1 milhão? Dinheiro não dá em árvore, e quem trabalha sabe o quanto custa ganhá-lo. Então, por que gastá-lo como se não fizesse diferença conseguir alguma vantagem?
Pesquisar preços e pedir descontos são atitudes que transformam as pessoas em consumidores conscientes de seus direitos. Se eu posso pagar menos por um produto, se tenho tempo para checar onde os preços são mais acessíveis, não posso abrir mão desse privilégio em favor da preguiça ou de achar que esses são hábitos de pessoas mesquinhas. Ninguém junta fortunas esbanjando dinheiro. Muito pelo contrário: as pessoas enriquecem sabendo guardar, pesquisar e negociar. Será que não vale a pena todo o “trabalho”?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Situações iguais, desfechos diferentes

Semana passada uma notícia chocou quase todo mundo: uma criança americana de quase dois anos foi filmada pela própria mãe fumando maconha. A menina foi entregue a outros parentes para ser cuidada e a mãe está presa, aguardando julgamento. Se condenada, pode pegar pelo menos seis anos de prisão. Um agravante deixou os policiais e assistentes sociais do caso mais estarrecidos: pela maneira como estava agindo, é possível que a criança fosse acostumada a fumar, e que a filmagem não tenha sido de um ato isolado.
Há pouco mais de 20 dias fato semelhante aconteceu no Brasil. Em Cabedelo, na Paraíba, a polícia encontrou um vídeo de um menino de cerca de três anos também fumando a substância ilícita. Na filmagem um homem aparece dando a droga ao menino, observado pela mãe, que não faz nada para impedir o ato. Pior: ela e o homem gargalham o tempo todo ao ver a criança usando a droga. A mãe também perdeu a guarda do pequeno, mas não foi presa. Motivo: alegou estar sendo ameaçada pelo traficante do filme, na época seu companheiro, e que foi obrigada a deixar o filho fumar maconha. Assim, enquanto as investigações correm, ela está solta.
Estou bastante cansada de ler notícias em que alegações absurdas justificam crimes mais absurdos ainda. Não dá para acreditar que uma pessoa que gargalhava ao ver um traficante dar droga a seu filho estivesse realmente sendo ameaçada. Qualquer pessoa de inteligência mínima percebe que a mulher está muito à vontade no filme, inclusive participando ativamente do que está sendo feito.
Essa mãe (se é que podemos chamar uma pessoa assim de mãe!) merecia estar presa, e não esperando o julgamento em liberdade, muito provavelmente passeando e despreocupada. E grávida de outra criança, que deverá ter um triste futuro, se pensarmos em como ela cuida do primeiro.
Fazemos escolhas em nossas vidas que têm consequências em todos os nossos futuros atos. Se escolho morar com um traficante, como essa mãe, não posso querer depois justificar qualquer ato errado meu por ameaça. Se estava realmente correndo risco, por que não foi fazer denúncia à Polícia? Por que não fugiu? Por que não buscou ajuda? Por que não se escondeu?
Sei que muita gente vai querer justificar a covardia dessa mulher pelo medo, mas não há medo que justifique uma mãe agir como ela agiu. Quando vi a notícia sobre a mãe americana semana passada, não pude deixar de, mais uma vez, sentir vergonha por nossas leis serem tão complacentes. Lá, a mulher vai ser julgada, pode até ser inocentada, mas enquanto isso está presa e vai ter bastante tempo para repensar seus atos. Aqui, a mãe está esperando outra criança e, muito provavelmente, sem se preocupar nem um pouco em como está seu outro filho. Situações iguais, mas desfechos muitos diferentes.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sem limites de privacidade

Manter a privacidade, para muitas pessoas, ainda é importante, mesmo em tempos de redes sociais de todos os tipos, BBB em vários países e paparazzi de plantão para flagrantes de celebridades. Somos bombardeados 24 horas por informações pessoas que muitas vezes sequer nos interessam, mas temos a opção de dar (ou não) atenção aquilo que nos é mostrado.
O problema é que o limite entre privacidade e público ficou muito tênue. Esta semana tive um exemplo bem claro disso. Com quatro amigas, fui almoçar e, ao entrar no banheiro do restaurante, demos de cara com uma cena inusitada (para não dizer de extremo mau gosto e falta de senso): uma moça, bem arrumada inclusive, sentada no vaso sanitário, fazendo suas necessidades, com a porta totalmente escancarada.
Quando entramos e vi aquela cena, imaginei que ela iria fechar a porta rápido. Muito pelo contrário: ela continuou na mesma posição, e não se importou em até mesmo se limpar diante de nossos olhares espantados. Não que tenhamos ficado olhando diretamente para ela, mas na pia onde estávamos lavando as mãos havia um espelho onde era possível ver essa imagem nada agradável para quem estava indo almoçar. Procuramos sair o mais rápido possível do banheiro, afinal, não me interessa saber o que cada pessoa faz quando está sentado em um vaso sanitário.
O limite entre público e privado não existia nesse caso. A moça não se preocupou se a sua atitude iria incomodar outras pessoas. Fiquei imaginando se esse comportamento ela adota em todos os lugares, ou se foi uma situação pontual, já que sua carteira e celular haviam ficado na bancada da pia e, com a porta aberta, ela poderia vigiá-los. Independente disso, ficar com a porta escancarada, em um banheiro de restaurante, incomoda as pessoas. E muito!
Essa falta de limites de privacidade está se tornando cada dia mais comum. Eu mesma tenho um tom de voz alto, e às vezes não percebo que posso estar incomodando as pessoas próximas a mim quando estou em lugares públicos. Agradeço aos meus amigos que me avisam quando elevei a voz, porque não faço isso de propósito, e até mesmo tento às vezes me policiar para que isso não ocorra.
Mas noto que a maioria das pessoas não se preocupa com nada disso. Falar alto, muitas vezes contando detalhes de histórias sórdidas, faz parte do comportamento em público. Falar ao celular para que todo mundo possa ouvir o que está sendo conversado também é bastante comum. Os limites de privacidade precisam voltar a ser retomados. Ninguém precisa saber o que conversamos e, principalmente, o que fazemos no banheiro.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cada dia sendo o último

A tragédia que abalou Americana nesta quarta-feira ainda repercute alto na população, que busca entender o acidente que matou nove pessoas e deixou 14 feridas, após a colisão entre um ônibus e um trem. Em meio ao choque e aos inevitáveis questionamentos sobre quem causou a batida entre os veículos, as famílias das vítimas ainda têm de lidar com a partida repentina de seus entes queridos.
Aquelas pessoas estavam indo para casa após um dia de trabalho ou estudo. Gente que esperava chegar, possivelmente jantar e descansar, contar seu dia para a mulher, o marido, o amigo. Gente que talvez fosse chegar em casa e escrever uma carta, ligar para uma amiga e bater aquele papo atrasado, mandar um e-mail, resolver alguma situação pendente.
De repente, tudo acabado. Sem chance de dizer adeus, de se desculpar por alguma falha, de perdoar alguma mágoa antiga, de terminar algo começado, de visitar aquele parente, de fazer aquela viagem esperada, de realizar todos os seus sonhos.
A morte é a única certeza na vida de qualquer pessoa. Sabemos que vamos morrer, apenas não sabemos nossa data de validade. Quando ela é anunciada, seja por causa de doenças ou da velhice extrema, tentamos nos preparar para esse momento, e ainda assim é difícil aceitar a sua chegada. Buscamos consolo naquela velha frase de “ele(a) descansou”, mas ainda assim nos questionamos porque isso aconteceu. Mas, quando a morte chega assim, pelo menos temos tempo de nos despedir.
Porém, quando ela chega abruptamente, não há consolo imediato. Não há como voltar e fazer por aquela pessoa que se foi o que devíamos ter feito antes. E quem foi, que muitas vezes deixa planos inacabados, não tem a chance de finalizar o que havia sido planejado para sua vida.
Sábado uma pessoa me disse algo que jamais pensei transmitir: que eu vivo intensamente, como se cada dia pudesse ser o último. Talvez pelo fato de ter chegado muito perto de partir, eu tenha adotado essa atitude. Mas precisei passar perto da morte para entender que a vida é agora, e que nada pode ser deixado para depois.
O acidente de quarta-feira me reforçou isso. Pode ser clichê para muita gente, mas viver cada minuto, da melhor maneira possível, é o que devemos fazer. Sonhos podem ser interrompidos, podemos ter nossa existência acabada de um minuto para o outro, mas nossa partida deve ser marcada pela sensação de termos tentado, em vida, cumprir nossos objetivos. Deixar um plano inacabado é, com certeza, muito melhor do que deixá-lo apenas como uma ideia que jamais foi cogitada de ser colocada em prática. Termos pelo menos tentado ser felizes é o melhor presente que podemos deixar para aqueles que ficam.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Responsabilidade dividida

Essa semana tomei conhecimento de um dado impressionante: segundo o Censo Escolar de 2009, cerca de 25% das crianças e adolescentes brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento. Segundo a presidente do Instituto Paternidade Responsável, Jaqueline Reche, isso significa um montante de 4,8 milhões de pessoas sem o reconhecimento paterno – sendo cerca de 3 milhões menores de 18 anos. Na França, apenas 2% dos estudantes vivem a mesma situação.
Nossa sociedade ainda aceita passivamente que um pai não assuma seu filho. Ao invés de repúdio a uma atitude considerada desprezível, o que vemos, em muitos casos, são as famílias apoiando aqueles que não querem assumir seus futuros filhos. Como se uma criança fosse feita sozinha, ou por osmose, e não dependesse do relacionamento de duas pessoas para existir.
Não interessa se o relacionamento foi casual, se a mulher quis dar o famoso “golpe da barriga”, se o casal se detesta, se a gestante teve dez mil parceiros antes do pai da criança. O que interessa, acima de tudo, é que existe um pequeno ser que não tem nenhuma culpa do que seus pais fizeram, e que não pediu para vir ao mundo. Se veio, tem de ser criada com muito amor.
A falta do nome do pai na certidão é uma lacuna difícil de ser entendida. Afinal, qual o erro da criança que sonha em ter sua existência reconhecida por quem deveria amá-la e criá-la? Um dado em Santa Catarina, sede do Instituto, impressiona: sete em cada dez presos foram criados sem a figura paterna. Será que o caminho para a criminalidade não pode ter sido influenciado por isso?
Claro, tem também aqueles que, a despeito de não terem pai, seguiram suas vidas sem problemas. Mas estamos falando de problemas com a lei, e não psicológicos. Porque a ausência do pai deve ser triste demais. Pior ainda é saber quem ele é, onde está, o que faz, e ter consciência de que ele simplesmente não quer tomar conhecimento da existência do filho.
Está mais do que na hora de os homens entenderem que, a partir do momento em que são comunicados de uma gravidez, suas responsabilidades começam aí. Exames de DNA existem para comprovar sua paternidade, em caso de dúvida. Tenho amigos que não queriam assumir seus filhos, mas depois do DNA feito, viraram excelentes pais, a despeito de mal conversarem com a mãe da criança. Porém, uma ausência tanto em nome quanto em presença não pode ser retomada, depois dos anos passados. Tenho amigos cujos pais apenas os assumiram pela lei, e somente quando eles estavam adultos tentaram se aproximar. Alguns hoje têm bons relacionamentos, mas outros convivem apenas o mínimo necessário (quando convivem). Recuperar um amor que nunca foi dado pode ser impossível. Será que vale a pena correr esse risco?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Respeito ao direito de escolha

A campanha política começou há menos de um mês e já estou cansada dos jingles e propagandas em rádios, televisão e nas ruas. O bombardeio de informação (ou melhor, de tentativas de informação) é tão grande que, para quem é analfabeto político, é impossível realmente escolher seu candidato através do que está sendo mostrado nas propagandas.
Além desse arsenal, os políticos hoje podem contar com mais uma arma na briga pelo voto: a internet. Todo dia recebo cerca de dez e-mails falando desse ou daquele candidato. Alguns trazem “informações verídicas” sobre o passado e outros exaltam as qualidades do político no presente. Interessante que os que trazem observações desabonadoras sobre determinado candidato não contêm as provas sobre o que está escrito. Assim, uma história sem checagem nenhuma é repassada como se fosse verdade absoluta.
Para piorar, na quase totalidade desses e-mails, o final é o mesmo: se eu gosto do meu País, devo repassar e conscientizar as pessoas sobre quem é aquela pessoa. Ou seja, ainda vem a ameaça velada de que não sou patriota. Sempre me pergunto de onde as pessoas recebem esse poder para determinar o quanto gosto ou não do meu País!
Acho interessante que as pessoas que me enviam esse tipo de e-mail não conhecem meu posicionamento político, por uma simples razão: não converso sobre o assunto. Como o voto é secreto, não me vejo na obrigação de revelar a ninguém quem são meus candidatos. Por isso, jamais repasso esse tipo de e-mail. Mal vejo o que está escrito já deleto a mensagem, por achar um desrespeito que a pessoa queira impor a mim a sua visão política, sem sequer saber a minha.
Não discutir política não significa ser alienada. E o problema em falar sobre política é que geralmente a conversa não é pontuada por argumentos racionais e por respeito à opinião do outro: ela é pautada pela certeza de que o “meu candidato” é melhor que o seu. E ponto.
Quando o assunto começa, normalmente me calo. Não perco meu tempo tentando impor minha visão política, porque sei que meu interlocutor não vai me ouvir. Quando já temos nosso posicionamento, dificilmente temos a tendência a mudar de opinião. Então, para que gastar meu tempo em discussões que não vão levar a nada, a não ser a talvez um desgaste desnecessário?
Os eleitores precisam aprender que, assim como temos direito ao voto, também temos direito a escolher nossos candidatos. E tentar enfiar seu posicionamento político “goela abaixo” não é a melhor maneira de conquistar mais um voto. Porque, se você se considera politizado, não pode achar que seu amigo de posicionamento diferente é alienado. Ou você gostaria que tivesse essa opinião a seu respeito?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Indignação com as coisas certas

Tenho ouvido nas duas últimas semanas convites exaltados de pessoas que querem o boicote total ao filme “Os Mercenários”, de Sylvester Stallone. A despeito de a atriz brasileira Giselle Itié fazer parte do elenco, o motivo da indignação foi um comentário infeliz do ator, ao ser questionado do por que gravar no País: “Lá você pode atirar nas pessoas, explodir coisas e eles dizem ‘obrigado! E aqui está um macaco para você levar para casa’. Não poderíamos ter feito o que fizemos (em outro lugar)”.
Não pretendo assistir ao filme, mas não por indignação com o comentário infeliz do ator, que depois de perceber a polêmica que sua frase havia causado pediu desculpas ao nosso povo. Infelizmente, de certa maneira, concordo com o que Stallone falou: nossa gente, perante os estrangeiros (principalmente americanos), é subserviente demais. Esse posicionamento servil é que tem de mudar.
Um bom exemplo está em nossas universidades. Um estrangeiro pode vir aqui fazer pós-graduação sem falar o português, algo inimaginável na maioria dos países, onde a proeficiência na língua natal é item obrigatório para qualquer especialização. Aqui, o estrangeiro fala inglês ou espanhol, e está ótimo. Alguns professores se preocupam inclusive em traduzir a aula para o aluno, o que, na minha visão, é o cúmulo do absurdo.
Morei fora do Brasil e ninguém se preocupava em me ajudar quando eu não sabia alguma coisa. Aprendi rapidamente a me comunicar porque, ou falava inglês, ou falava inglês. Ninguém tentava falar em português comigo, ou sequer espanhol. Era obrigação minha aprender a língua de onde morava.
Conheço estrangeiros que trabalham aqui em multinacionais há dois ou três anos cujo português limita-se ao básico. Por que isso? Porque, independente de onde estejam, sempre tem alguém para traduzir o que eles precisam. Assim, têm um tradutor disponível a qualquer tempo, sem pagar nada. E ainda acham desagradável que nas lojas, bares e restaurantes, as pessoas não falem inglês ou espanhol para atendê-los!
Gostaria que essa indignação que as pessoas estão sentindo servisse não apenas para um fato isolado, mas para tudo. Que servisse para cobrarmos mais saúde, educação, estradas decentes, menos impostos. Que nos indignássemos realmente com coisas que importam, e não com comentários que em nada vão mudar a nossa vida. Ou melhor, deviam se importar com o comentário: mas para mudar esse comportamento servil que ainda temos perante os estrangeiros. Temos de nos lembrar que eles são iguais a nós: nem mais, nem menos. E darmos a eles o mesmo tratamento que recebemos, sem privilégios ou idolatria. Tratar bem é uma coisa, ser subserviente é outra. Que toda essa indignação sirva também para revermos nosso próprio comportamento.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Amores que se acabam

Essa semana os adoradores de fofocas (me incluo nessa categoria!) acompanharam duas brigas entre casais que ocuparam já muito espaço na mídia, primeiro em função do amor que os uniu, e agora do ódio que os separa. Dado Dolabella foi condenado por ter agredido a ex-namorada Luana Piovani, em 2008, e desabafou em seu twitter, dizendo que a maior sentença tinha sido namorar a atriz. Já Stephany Brito perdeu o direito a ganhar 20% dos proventos do jogador Alexandre Pato, o que lhe daria a “bagatela” de R$ 130 mil mensais, e terá de se contentar, por enquanto, com uma mesada de R$ 5 mil. Nesse caso, a decisão ainda pode ser revertida.
Interessante notar que ambos os casais tiveram seu romance amplamente divulgado pela imprensa. Dado e Luana fizeram inúmeras juras de amor eterno, eram vistos em lugares públicos sempre trocando carícias, e pareciam um casal perfeito. Pato e Stephany casaram-se em uma cerimônia de conto de fadas, com direito a muitos sorrisos na saída da igreja e alegres acenos aos fãs.
Apesar de as cenas de amor entre os dois casais estarem gravadas em fotos e vídeos, o que vemos hoje na imprensa (e imaginem o que pode estar acontecendo fora das vistas do público!) são mostras do mais puro rancor. Dizem que amor e ódio estão muito próximos, e isso parece ser a mais pura verdade quando envolve o fim de um relacionamento.
Também vemos essa situação no dia a dia. Casais que pareciam perdidamente apaixonados de repente tornam-se inimigos mortais. Separações sempre são dolorosas, por mais que aconteçam de comum acordo. É claro que a pessoa rejeitada vai sofrer. Ninguém gosta de ser abandonado por quem jurou amor eterno. Ninguém casa já pensando na separação. As pessoas se unem acreditando que a relação será para sempre. Porém, de repente, tudo acaba.
Vinícius de Morais dizia “que seja eterno enquanto dure”. Quando qualquer relacionamento acaba, o mais comum é notarmos que uma das partes segue a vida, enquanto a outra fica remoendo o que houve. O mais espantoso é que essa pessoa nem percebe que, enquanto está remoendo um relacionamento que acabou, a outra está se abrindo para outro amor.
Já vi mulheres e homens ficarem anos tentando infernizar a vida daquele(a) que foi embora. Ou acreditando que, mesmo o(a) outro(a) já estando em um novo relacionamento, pode haver uma volta. Amor e ódio fazem parte dos sentimentos de todo ser humano. Em igual intensidade, podem ser nossa salvação ou perdição. Ficar idolatrando alguém que se foi é tão doentio quanto querer se vingar a qualquer custo dessa pessoa. Quando um relacionamento acaba, dói. Mas dói muito mais deixar de viver a própria vida, para querer a vida de outra pessoa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Você gosta de ficar esperando?

Sou uma pessoa que tem muitas manias. Alguns colegas de trabalho, como Carlos Ventura, volta e meia tiram sarro da minha “mania” de almoçar no horário. Outros dizem que pareço velha, que tenho de comer sempre na mesma hora, mas esse é um hábito meu, até porque tomo café muito cedo. Aliás, na redação já virou rotina: quando chega meio-dia, começo a chamar todo mundo para almoçar. As brincadeiras sempre surgem, de maneira sadia e com respeito.
Uma “mania” (eu prefiro chamar de hábito) que tenho e não é valorizada no Brasil é a pontualidade. Procuro ser ao máximo uma pessoa pontual. Se vou atrasar, sempre ligo avisando. Acho um enorme desrespeito fazer com que a pessoa com quem marquei um compromisso seja obrigada a me esperar. E, óbvio, detesto ter de esperar.
Mas ainda me espanto quando ouço clichês do gênero “todo mundo atrasa”. Discordo totalmente dessa frase. Nem todo mundo atrasa. Conheço pessoas que são muito mais pontuais do que eu, que procuram estar no horário combinado de qualquer maneira e que, quando não o fazem, isso ocorre apenas porque algum imprevisto muito grave aconteceu.
Morei em Londres um ano e a famosa pontualidade britânica era algo que me encantava. Quando tomava o metrô, sempre conferia se ele chegava mesmo no horário que estava no visor – e chegava. Achava interessante que às vezes o horário era quebrado – 11h23, por exemplo – e o metrô estava ali quando o ponteiro chegava na hora estipulada.
Tive um professor na faculdade que começava a aula às 7h30 em ponto, estivesse sol ou chovendo. Morava em Londrina, e o campus fica num bairro distante do centro. Se você entrasse na sala depois que ele havia dito seu nome na chamada, azar, porque a falta já havia sido dada. Aquela falta significava cinco aulas, e não adiantava chorar nem implorar. Lembro-me de um dia em que estava chovendo muito e apenas uns quatro alunos haviam chegado. Ele começou a chamada normalmente e eu protestei, dizendo que com certeza a chuva havia feito a maioria se atrasar. Ouvi a seguinte resposta: “Do mesmo jeito que você e seus colegas estão aqui, o restante da classe poderia estar. A dificuldade de ônibus é igual para todos”.
Concordo com ele. Quando temos interesse, somos mais do que pontuais. Mas essa mentalidade de que todo mundo atrasa acaba prevalecendo, e já virou lugar comum largar o outro esperando, sem se preocupar se isso vai acarretar mais transtornos à pessoa. Claro que a rigidez da pontualidade se refere principalmente a compromissos formais. Um fim de semana, por exemplo, não precisa ser regido tão fielmente pelo relógio. Mas isso não significa largar seus amigos esperando duas horas depois do combinado. Nesse caso, acredito que a paciência da maioria das pessoas se acaba. Ou você gostar de ficar esperando?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Preconceito ignorado e aceito

Ontem li uma notícia na internet que me deixou estarrecida: um deputado alemão, em entrevista, sugeriu que os gordos deveriam pagar um imposto para compensar os gastos de saúde resultantes de sua excessiva carga corporal. Segundo ele, é perfeitamente razoável que quem tem voluntariamente uma vida pouco saudável deve assumir a responsabilidade financeira da mesma.
Acredito que muita gente vá concordar com esse ponto de vista. Mas vamos então ampliar a ideia: quem fuma, bebe, pratica esportes radicais e come porcaria (mesmo sendo magro), também tem de pagar mais impostos. Assim como quem tem doenças congênitas ou histórico de problemas como diabetes ou cardíacos entre os membros da família. Afinal, todas essas pessoas podem trazer mais custo ao Estado e aos planos de saúde.
Sempre fui uma gordinha assumida. Nunca tive grandes problemas em estar acima do peso. Depois que tive câncer engordei bastante, e tenho consciência de que preciso emagrecer o que ganhei durante o período da doença. Apesar disso, tenho taxas de colesterol e glicemia que fazem inveja a muita gente magra que convive comigo. Ainda assim, se morasse na Alemanha, correria o risco de pagar imposto a mais por gostar de comer.
A sociedade estabeleceu muitos pontos “politicamente corretos”. Não podemos mais fazer piadas de negros nem depreciar qualquer portador de necessidades especiais. Concordo com isso. Mas, para compensar a falta desses personagens nas piadas, principalmente as de mau gosto, usamos agora os gordos. Sempre ele é o idiota nos programas de humor. Nas novelas, ele é sempre o bom amigo e, para conseguir alguém na trama, acaba emagrecendo.
O preconceito contra os gordinhos, gorduchos e gordões existe e é aceito totalmente em nossa sociedade. Cansei de entrar em lojas e ser atendida por pessoas que, sem o mínimo de respeito, me dizem “não temos roupas do seu tamanho”, como se eu pesasse uma tonelada. Já cheguei a escutar o absurdo de que roupa para gordo não tem público. Como se as pessoas acima do peso não tivessem o direito de se vestir bem, assim como os magros.
Felizmente, essa ditadura de que apenas pessoas magras são bonitas e felizes está se acabando. Cada dia mais vejo mulheres lindas, que antes ficavam obcecadas em usar o número 42, aceitando que são 46. Claro que, se a gordura traz problema de saúde, ela precisa sim ser combatida. Mas isso deve ser feito de maneira saudável, e não apenas com o objetivo de conseguir a imagem que agrade apenas aos outros. Antes de mais nada, precisamos agradar a nós mesmos. Se a minha felicidade depende apenas de eu usar um manequim menor, alguma coisa está errada. Minha pessoa não é composta apenas por meus quilos, mas por minha personalidade.
Também gosto de ver pessoas magras. Não estou pregando aqui que todo mundo seja gordo. Mas acho fácil quem é magro criticar quem não consegue emagrecer. Assim como é fácil quem não fuma criticar o fumante, e quem não bebe criticar o alcoólatra. A obesidade extrema já é considerada uma doença pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Precisa agora parar de ser tratada como um problema apenas estético pelas pessoas, que não ajudam em nada quem sofre com isso.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Obrigada aos amigos!

Considero-me uma pessoa privilegiada em muitos aspectos: tenho uma família que, entre altos e baixos, está sempre unida; trabalho naquilo que gosto; tenho saúde; e muitos amigos. Nesse ponto, sou mais do que privilegiada: tenho vários melhores amigos, e eles não cabem nos dedos de uma só mão.
Muitas frases definem a amizade. Uma das que mais gosto é que “amigos são irmãos que a gente escolhe”. E realmente são. Escolhemos pessoas que entram em nossa vida e fazem parte dela para sempre. E não necessariamente elas são como a gente. A minha mais antiga amiga (nos conhecemos há mais de 30 anos) é completamente oposta a mim: não tem vaidade nenhuma, detesta os lugares que eu gosto, se veste de maneira totalmente simples, e eu sou meio perua. Mesmo assim, somos tão ligadas que mesmo a distância de quase 5 mil quilômetros entre nós não conseguiu esfriar essa amizade.
Também se diz por aí que, se a gente quer saber quantos amigos tem, basta dar uma festa. Mas, se quisermos saber qual a qualidade deles, basta ficar doente. Já experimentei esses dois extremos. Tenho amigos com quem saio, vamos a barzinhos, festas, nos reunimos para churrascos, sempre conseguimos um pretexto para um choppinho. Tenho também aqueles com quem raramente me encontro, porque não gostam de sair. Nos dois grupos, tive a sorte de contar com pessoas maravilhosas quando estive doente. Minha casa vivia cheia de gente para me visitar. No primeiro dia de hospital, quando o médico chegou para fazer a visita, havia umas 15 pessoas dentro do quarto! Tem como alguém não se recuperar com tanto carinho assim?
Estou escrevendo sobre isso porque na próxima terça comemoramos o Dia do Amigo. A data é significativa, porque, depois da nossa família (e, para algumas pessoas, até antes dela), os amigos são as pessoas que mais nos amam. São eles que estão ali quando tomamos “aquele chute” e precisamos chorar. São eles que, quando fazemos alguma burrada, nos dão a maior bronca, mas ao mesmo tempo passam a mão em nossa cabeça para nos consolar.
Mas, principalmente, os verdadeiros amigos tentam não nos deixar errar. Amigo não serve apenas para concordar com tudo que pensamos e fazemos – mas também para abrir nossos olhos quando sabem que estamos entrando numa barca furada. Infelizmente, nem todos pensam assim. Já vi muita gente vendo o melhor amigo errando feio – e não falar nada com o argumento de que “ele sabe se cuidar”. Também já vi (e vivi) o inverso: querer mostrar o erro que ele estava cometendo, e perder a amizade. Nesse caso, se fosse verdadeira, jamais seria perdida. Por isso, não lamento os que se foram, e sim agradeço aos que ficaram. Sem eles, não seria tão feliz como sou.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Síndrome do "coitadinho"

A Copa do Mundo está acabando e, pela primeira vez em sua história, não estão presentes na final nenhum dos famosos campeões e sempre favoritos Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. No jogo em que a Alemanha foi eliminada, a torcida para a Espanha dentro da redação era quase unânime. O motivo: a Espanha nunca foi campeã do torneio. Ou seja, o fato de a Alemanha ter feito uma campanha que encantou os admiradores do esporte não foi levado em conta pelos torcedores do País Basco.
Durante essa Copa, vi muitas pessoas justificarem suas preferências com argumentos que nada tinham a ver com futebol. Nos confrontos com os Estados Unidos, o comentário era que eles não merecem porque “afinal, já são um povo rico e não merecem ganhar esse título”. Em contrapartida, seleções que não têm nenhuma tradição no futebol, como os africanos, tinham uma torcida enorme, principalmente quando jogavam contra algum país desenvolvido economicamente. Novamente, a emoção tomava conta das pessoas: “Esse é um país pobre, merece ganhar o jogo”.
O povo brasileiro tem mania de torcer por quem é menos privilegiado, principalmente no lado financeiro. Muitos chamam esse comportamento de “síndrome do coitadinho”. Quando torcemos, normalmente a escolha é por aquele que “precisa mais”. Se ele fez por realmente merecer não importa, o que importa é que ele tem mais necessidade que seu concorrente.
Quando havia o Show do Milhão, e o candidato ao prêmio de R$ 1 milhão era humilde e dizia que queria ganhar apenas R$ 50 mil para ajudar a mãe (ou o pai, o irmão, reformar a casa), Sílvio Santos o ajudava de todas as formas para que ele conseguisse ganhar a quantia almejada. Em compensação, lembro de uma vez em que um engenheiro disse que queria ganhar R$ 500 mil para comprar uma casa em Búzios. Minha mãe falou: “Esse não merece ganhar, já tem dinheiro, nem devia estar no programa”. O fato de ele ter sido sorteado como todo mundo e estar ali não contava. O que contava era que ele tinha dinheiro. Assim, não merecia o prêmio.
Essa visão de “coitadinho” nos faz esquecer que prêmios e conquistas devem ser dados a quem faz por merecer, e não apenas a quem tem menos condição financeira. Muitas pessoas de sucesso conseguiram o que têm na base do trabalho, do estudo, do esforço, e não do assistencialismo. Se elas hoje não precisam de prêmios, foi porque lutaram para sair da necessidade, e não ficaram se fazendo de “coitadinhas” para “merecerem” a caridade alheia. O merecimento vem do esforço, e não da pena. Enquanto continuarmos torcendo apenas pelos fracos, jamais nos espelharemos nos fortes. E jamais cresceremos como eles.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O crime, realmente, não compensa

Apesar de não ser tão velha, já uso aquelas frases tipo “no meu tempo”, “na minha época”, e por aí afora. Normalmente as citações vêm acompanhadas de uma memória dos meus tempos de criança e adolescentes, quando ainda não tinha autonomia para fazer o que quisesse. Lembro-me de meus pais usando as mesmas frases, e de eu sempre pensar o seguinte: “jamais vou pensar como vocês”.
Em muitas coisas, realmente, meu pensamento continua diferente do que eles acreditam. Mas hoje vejo que, em muitas coisas, eles estavam corretos. Uma delas é o respeito aos valores, que a cada dia vemos desaparecer. Os pais, que deveriam mostrar aos filhos princípios como respeito, honestidade, solidariedade, acabam usando a desculpa da correria do dia a dia para deixarem esses valores serem repassados pela escola. Parece que a maioria se esquece de que a educação, em primeiro lugar, vem de casa.
Fui uma criança levada ao extremo. O que meus irmãos tinham de quietos e obedientes eu tinha de encapetada. Nem parecia menina, parecia mais um moleque de tanto que aprontava. Mas existe uma grande diferença entre ser levada e ser desrespeitosa. Jamais ousei levantar a voz aos meus avós. Aliás, resquícios da minha criação, sou incapaz de chamar uma pessoa mais velha de você: até meus pais chamo de “senhor” e “senhora”. E isso não me faz mal nenhum, não acho absurdo usar este tratamento, e sou super acostumada a isso.
E meus valores, dos quais hoje me orgulho muito, foram me passados muitas vezes com atitudes que hoje seriam reprovadas por aqueles que acreditam que qualquer repreensão resulta em baixa autoestima. Lembro uma vez em que fui com meus primos, todos da mesma faixa etária, ao supermercado próximo à casa do meu avô materno. Lá chegando, uma prima teve a brilhante ideia de surrupiar chocolate. Como o diabinho de todos estava bem alerta, todo mundo aderiu ao crime. Pegamos os chocolates, e guardamos numa construção no meio do caminho. Como criança tem maldade e inocência na mesma proporção, à noite a mesma prima perguntou, na frente de todos os pais, quem queria ir “achar chocolate na rua”. Saímos todos em fila, e cada um voltou com sua guloseima na mão.
Nem preciso dizer que minha mãe e uma tia mais rígida pegaram eu e minha prima mais velha, encostaram as duas na parede e conseguiram nossa confissão. Ao admitir o delito, pensei: “meu pai vai me matar”. Diferente do que imaginei, meu pai não disse nada. No dia seguinte, me acordou cedo e me levou ao mercado. Meu tio apareceu com minha prima, e eles nos fizeram entrar no mercado de pagar todos os chocolates que haviam sido roubados. A vergonha foi tanta que nunca mais consegui entrar naquele mercado. E essa mesma vergonha me mostrou que, se quero alguma coisa, devo fazer por merecê-la. Esse é um dos valores ensinados de maneira dura, mas que formaram meu caráter. Agradeço meus pais por terem me mostrado, da forma mais vergonhosa possível para uma criança, que o crime realmente não compensa.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Se beber, pode dirigir (e matar)

Celebrada há quase dois anos como uma eficiente medida de punição contra motoristas embriagados, a chamada “Lei Seca” mostrou, essa semana, que na verdade é totalmente inócua quando o infrator se recusa a fazer o teste do bafômetro. Na última sexta-feira, em Sumaré, ao atropelar quatro pessoas de uma mesma família, negar socorro e tentar fugir, o motorista Giliard dos Santos Queiroz estava visivelmente embriagado. Porém, ele se negou a fazer o teste e, como não houve um exame de sangue, foi solto. Após matar uma criança de nove meses, está em liberdade, porque não houve flagrante.
A lei preconiza que nenhuma pessoa pode fornecer prova contra si mesma. No caso de Queiroz, se aceitasse se submeter ao bafômetro, ele comprovaria o que estava claro a quem o prendeu: seu teor alcoólico estava acima do permitido por lei. Mesmo embriagado, ele sabia das consequências do teste. Portanto, podemos presumir que, ao beber, ele também sabia que poderia provocar um acidente.
A justificativa para que não se pedisse a prisão do motorista é que não havia embasamento jurídico para mantê-lo em cárcere, já que ele se negou a fazer exame de bafômetro e de sangue, e a menina não morreu no local. Ou seja, somente quando acontecesse uma tragédia no local dos fatos é que a pessoa corre o risco de ser punida. Nesse caso, como a bebê morreu depois do ocorrido, não há nada que se fazer.
Para agravar a sensação de impunidade, os exames de sangue que poderiam ajudar na constatação de embriaguez não foram requisitados, porque a demora dos médicos atrapalharia o resultado já que, quando eles chegassem, o motorista estaria melhor.
Uma cadeia de fatos absurda que mostra como a impunidade reina livremente no Brasil. Vista no início como uma norma rígida, a Lei Seca é paradoxal, porque permite a qualquer pessoa se recusar a fazer o teste. Não acho que o teste deveria ser opcional: se a pessoa está embriagada, tem de fazê-lo e pronto. O motorista que causou a tragédia do fim de semana está livre e, muito provavelmente, terá uma punição branda, graças às famosas brechas que nossas leis possuem.
Não sou contra a Lei Seca, muito pelo contrário, mas acho que alguns pontos precisam ser revistos. O interessante dela é que o rigor é o mesmo para quem beber duas latas de cerveja e quem tomar um barril inteiro: a suspensão do direito de dirigir por 12 meses. Enquanto isso, quem mata, mas não faz o bafômetro, pode ficar livre da cadeia. Existe alguma lógica nesse princípio? Mesmo que exista, ela não servirá para abrandar a dor dos pais que perderam a pequena menina. Além da tristeza, ainda resta a sensação de impotência ao ver o responsável livre da punição, pelo menos por enquanto. Livre, inclusive para, se quiser, continuar bebendo e dirigindo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O adeus que não quis dar

Há dez dias minha amiga Aline morreu. Durante três anos ela foi uma guerreira, lutando com todas as forças contra um câncer muito agressivo que, a despeito de todas as tentativas médicas, conseguiu vencer seu corpo, mas jamais quebrou seu espírito. Pouco antes de ser sedada, quando não havia mais o que fazer em termos médicos, Aline pediu à família que não desistisse dela. Foi o último apelo de uma pessoa que estava totalmente paralisada e até respirando por aparelhos, mas ainda tinha fé e acreditava na cura.
Conheci Aline na minha primeira sessão de quimioterapia. Sentada no fundo da sala, ela usava uma peruca linda, e sorria a todo mundo que entrava na sala. O infortúnio nos aproximou. Aquele primeiro sorriso foi a deixa para que dela eu me aproximasse e perguntasse onde ela havia conseguido aquela peruca. Na segunda sessão, eu já estava careca, e ela me disse que eu estava linda. Na terceira, fiquei sabendo que ela chorava comigo cada vez que iam me aplicar a quimio. A quarta ela fez um dia antes de mim, mas deixou seu telefone para que eu entrasse em contato.
Durante dois anos ela fez parte da minha vida quase que diariamente. Não nos víamos sempre, mas conversávamos bastante. Acompanhei a volta do câncer, o reinício da quimioterapia, e vi aos poucos a doença vencendo aquela mulher doce que, mesmo doente, estava sempre sorrindo e dizendo a todo mundo que ficaria curada.
Tive com ela uma ligação espiritual que não tenho com muitos amigos de muitos anos. E aí, por mais que eu esperasse, a morte veio. Quando chegou, não conseguia acreditar. Porque, por mais que a gente espere, por mais que nos preparemos para ela, por mais que tenhamos consciência de que aquele sofrimento precisa acabar, ainda assim, quando ela chega, não conseguimos entender.
Acho que a morte é a coisa mais sem compreensão que existe. A pessoa está ali e, de um minuto para o outro, não existe mais. Acredito que o espírito se mantenha vivo, mas saber que meu celular nunca mais vai tocar com o nome “Aline” piscando no visor dói. A morte é entrar no Orkut e ver que aquele perfil sorridente foi apagado. E saber que foi apagado por uma terceira pessoa, porque ela não estava mais aqui para fazer isso. É olhar nossas fotos, sempre sorrindo, e pensar que nunca mais poderei ter outro retrato com ela.
Não vi Aline ser enterrada. Guardei para mim a imagem daquela mulher alegre, confiante, guerreira, sincera e amiga. Mais que amiga, irmã. Porque ela foi a irmã que eu escolhi. Sinto que perdi uma parte de mim. Ao mesmo tempo, sei que ela está ao meu lado. A dor, com o tempo, se suaviza, mas a imagem, graças a Deus, nunca se apaga. Seja feliz onde estiver, minha amiga!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Saudades do café na mesa

Esta semana senti saudades de mim. Saudades do que fui, do que me ajudou a ser quem sou, de pessoas que me acompanharam sempre, e de tudo aquilo que me formou. Não vejo a saudade com um sentimento dolorido – muito pelo contrário, se sinto saudades de algo ou alguém é porque aquele momento vivido foi importante para mim.
Senti saudades de ficar de castigo (ou até mesmo tomar umas chineladas) quando aprontava alguma coisa mais séria. Mas o que mais senti saudades foi da minha mãe fazendo um café da tarde maravilhoso que eu e meus amigos adolescentes aproveitávamos ao máximo. Nesses dias, ela colocava toda a porcelana na mesa e nos servia deliciosas guloseimas acompanhadas de um café fresquinho. Todos os meus amigos e do meu irmão adoravam ir a minha casa tomar esse café – o lugar onde eles eram tratados como adultos, e conversavam com minha mãe de igual para igual.
Depois, na faculdade, o café na casa dos amigos (quando estava frio demais para a cerveja!) virou um hábito. Aliás, a bebida foi minha companheira em muitas noites que, atolada de trabalhos a entregar, eu passava em claro datilografando sozinha. Chegava à faculdade e já pegava um copo cheio com a “ tia” do lanche. Eu e meu melhor amigo, Ursão, passávamos horas filosofando em volta de uma garrafa térmica que, à medida que se esvaziava, era cheia de novo por mim.
O café continua fazendo parte da minha vida. Ainda hoje temos o hábito de tomar café da tarde em casa. Basta chegar uma visita e, dependendo do dia, meu pai sai para comprar pão fresquinho, queijo, leite, e outras delícias. Enquanto isso, minha mãe esquenta o leite e passa um café forte, sem açúcar, marca registrada dela no cuidado com meu pai, que é diabético. E a reunião em volta da mesa, para comer e conversar, acaba se prolongando por horas.
Engraçado como esses hábitos se fixam em nossa vida. Meu irmão mais velho volta e meia passa em casa à noite apenas para tomar uma xicarazinha, feita por minha mãe. E tem de ser o da minha mãe, que o meu não serve! Segundo meu pai, “é muito fraco, e não tem gosto”.
Essas reuniões em volta da mesa me ajudaram a ser quem sou. Discussões sobre assuntos banais ou problemas familiares fizeram (e ainda fazem) parte desses momentos em que, entre uma mordida e outra, expressamos nossas opiniões.
Quando estive doente esse era um dos melhores momentos do meu dia. Sentar com quem vinha me visitar, rir, escutar um pouco das histórias que estavam acontecendo no mundo lá fora (afinal, era somente eu quem estava na cama!), me traziam uma sensação de normalidade que estava fora da minha rotina.
Esses tempos saudosos não voltam mais, mas a lembrança deles está intacta em minha memória. Basta o cheiro fresco do café, para reavivá-la!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pequenos podres poderes

Não sei de quem ou onde ouvi a seguinte frase: “Dê o poder a uma pessoa e você vai conhecê-la realmente”. Essa máxima pode ser aplicada perfeitamente a muitos funcionários públicos. Basta ter o poder na mão, e se acham no direito de decidir quando e como atenderem um cidadão. Se não estão a fim de atender, azar de quem está esperando. Não estou falando que todo funcionário público é assim, mas uma boa parte, amparada pela famosa estabilidade, se acha no direito de mandar e desmandar na hora de atender a população.
Engraçado que esse tipo de comportamento geralmente é visto em quem ocupa cargos sem destaque algum, mas que lida diretamente com o público. Afinal, o trabalho talvez seja o único lugar onde essas pessoas têm algum poder. Existe até um nome para esse fenômeno: Síndrome da Pequena Autoridade.
Poderia citar aqui dezenas de vezes em que me deparei com esse tipo de atitude. Quando uma amiga foi tirar a segunda via da identidade, há cerca de dez anos, não havia todas as facilidades online. A funcionária da Delegacia a atendeu com a maior má vontade, sem querer dar nenhuma informação e ainda achando que ela deveria ir a um despachante para pedir outro documento.
Em postos de saúde, então, a grosseria parece ser a tônica de muitos funcionários. Há quase um mês fui tomar a vacina contra a gripe Influenza A. Como me encaixo no grupo de risco, levei um atestado comprovando minha necessidade da dose. Menos de cinco minutos após ter entregado o documento, lembrei que precisava da vacina da febre amarela. Quando informei isso à atendente, a mulher reclamou que “agora ia complicar”. Questionei o que tanto iria complicar, e ela, com a maior cara de pau, disse que teria de ir novamente à sala das aplicações para levar meu pedido. Detalhe: a sala ficava a menos de dez metros de onde estávamos. Como sou muito consciente dos meus direitos, falei que, mesmo complicando, ela ia levantar e avisar a enfermeira, porque eu não iria voltar outro dia para tomar novamente vacina. Ela resmungou, mas foi avisar a enfermeira.
Como repórter, recebo sempre reclamações de mau atendimento em repartições públicas, seja no posto de saúde, na regional do bairro, na Prefeitura, no banco. Parece que algumas pessoas têm um prazer secreto em dificultar a vida do cidadão, principalmente dos mais humildes, esquecendo que ele é um contribuinte. Pior: agem assim porque sabem que dificilmente uma reclamação é levada adiante e, mesmo que o seja, mais dificilmente ainda vai resultar em qualquer tipo de punição. É a Síndrome ocupando o espaço que deveria ser preenchido por boa vontade e educação. Por isso, quando se sentirem mal atendidos ou prejudicados, façam valer seus direitos. O funcionário não está ali lhe fazendo um favor: é obrigação dele atender bem ao cidadão.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Crueldade sem fim e impune

O Brasil acompanhou revoltado, na última semana, o sumiço e apresentação à Justiça do Rio Janeiro da procuradora aposentada Vera Lúcia de Sant'Anna Gomes, acusada de torturar uma menina de dois anos que estava sob sua guarda para adoção. As fotos da menina, com os olhos inchados e quase fechados de tanta agressão, foram mostradas em toda mídia, e somente pessoas sem coração não se indignaram com o sofrimento da criança que, durante um mês, foi agredida por quem deveria protegê-la.
Notícias como essa estão se tornando cada vez mais comuns em todas as classes sociais e lugares do País. Pais que espancam cruelmente os filhos, mães que deixam crianças trancadas em casa para irem a bailes, parentes e vizinhos que abusam sexualmente dos pequenos aumentam a cada dia. Uma crueldade sem fim que é agravada por um fato já corriqueiro em nosso sistema judiciário: a impunidade reinante.
No caso dessa criança em específico, o maior espanto foi a divulgação de que a mesma procuradora já havia sido denunciada pelo mesmos tipo de agressão, também em outra criança que estava sob sua guarda. Fica aí a pergunta que não quer calar: como foi permitido que ela conseguisse uma segunda criança para criar, enquanto outros casais realmente amorosos ficam anos na fila de espera e passam por um crivo rigoroso de assistentes sociais e psicólogos antes de serem aprovados para a adoção?
São vários os fatos que chocam, revoltam e mostram como a criança é realmente um ser indefeso no nosso País. O advogado da acusada, Jair Leite Pereira, que já tentou dizer que ela era inocente, agora mudou seu discurso e alega que, de acordo com o IML (Instituto Médico Legal), “as lesões foram leves e não causaram nenhum mal estar maior na criança”. Porém, um laudo complementar do IML aponta lesões graves na garota.
Sabemos que o papel da defesa é proteger seu cliente. Mas daí a alegar que não houve mal estar maior à pequena, que nem conseguia abrir os olhos, é chamar a população de idiota e a Justiça de cega. Quando as acusações contra a procuradora foram apresentadas, há um mês, a menina foi levada para o hospital e precisou ficar três dias internada. Que tipo de lesão leve é essa que obriga uma criança a ser internada durante todo esse tempo?
Pior que a lesão física são as lesões psicológicas que ela sofreu nesse período. Em princípio, a procuradora já foi obrigada a custear um tratamento psicológico para a menina. Melhor que nada, mas como essa pequena criatura vai poder novamente confiar em outra pessoa? E, para finalizar: até quando as agressões contra os pequenos, em nosso País, deixarão de ser tão banalizadas? Outro dia escrevi que tinha orgulho de ser brasileira. Porém, quando vejo essa impunidade, preferia ter nascido em outro país qualquer, onde as leis são respeitadas e cumpridas.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sucesso da baixaria

Foi divulgado hoje em toda a mídia que o “Big Brother Brasil 10” foi o programa que mais recebeu denúncias de desrespeito aos direitos humanos na campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania". Das 391 denúncias feitas pelos espectadores, entre agosto de 2009 e abril de 2010, 227 referiam-se ao programa. As reclamações foram classificadas como desrespeito à dignidade da pessoa humana, apelo sexual, exposição de pessoas ao ridículo e nudez.
Fórmula que tem dado certo há cerca de dez anos no Brasil, o reality show, que tem público cativo em nossas emissoras, tem se mostrado, cada vez mais, um desserviço à televisão brasileira. Antes que alguém me critique e queira impor que eu assisto este tipo de programa, afirmo que já fui sim uma fã do formato, mas hoje não perco um segundo do meu tempo vendo quem está com quem debaixo do edredom e muito menos discutindo barracos fabricados em rodas de bar com meus amigos. Respeito quem gosta, mas eu tenho coisas mais interessantes a fazer ou assistir no horário em que eles são transmitidos.
O sucesso desses programas não se restringe ao nosso País, tanto que a fórmula deles veio de fora. A curiosidade em torno das atitudes de várias pessoas fechadas numa casa, sem nada de produtivo para fazer, é comum a europeus, americanos, africanos, asiáticos, enfim, a quase todos os povos.
Não acho que todos os programas desse tipo sejam ruins. Um bom exemplo é o “Extreme Makeover”, aqui no Brasil copiado por Luciano Huck com seu “Lar Doce Lar”. Porém, diferente dos Estados Unidos, onde o programa é um sucesso absoluto, aqui a audiência não subiu espantosamente depois que ele foi implantado dentro do “Caldeirão”. Para quem não conhece, no “Extreme Makeover” uma família tem sua casa reformada ou, se for o caso, reconstruída. A mobilização é gigante para que isso ocorra. São vários profissionais, vizinhos, amigos, e astros que se prontificam a ajudar as pessoas necessitadas. Também ocorrem conflitos, afinal, os organizadores têm uma semana apenas para terminar tudo. Porém, são conflitos superados por um bem comum: dar uma casa nova a uma família.
Ninguém fica de biquíni, não há cenas sugerindo sexo, nem intrigas para um derrubar o outro. Não há barracos “reais”, comentários racistas e preconceituosos, ameaças verbais, “filosofias” sem o menor sentido e as “estratégias” para se conquistar o prêmio. Em minha opinião, o tal milhão dado nesses realities seria muito melhor usado para reformar ou reconstruir uma ou várias casas. Uma pena, mas talvez a maioria dos telespectadores ainda não esteja preparada para trocar as baixarias por ajudar os mais necessitados.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Assumindo responsabilidades

O Superior Tribunal de Justiça negou na última terça-feira, por unanimidade, o pedido de indenização feito pela família de um ex-fumante, morto em 2001, vítima de câncer de pulmão, à indústria tabagista Souza Cruz S.A. A família alegou que era obrigação da empresa informar que o cigarro causava dependência e poderia provocar problemas de saúde, como o câncer. Porém, o Tribunal entendeu que a indenização não se justificava, porque muitos fumantes nunca desenvolvem câncer e diversas pessoas que nunca fumaram, até crianças, apresentam a doença.
Concordo com a Justiça. Alegar desconhecimento dos males do cigarro, nos dias de hoje, somente se a pessoa for cega e surda. Impossível não ver as fotos de advertências que há mais de dez anos estão estampadas nos maços, assim como é difícil não ter ouvido ou lido reportagens em rádio, televisão, jornal e revista sobre o assunto.
Também não acho que vale a alegação de que, há 40 anos, as pessoas não tinham o conhecimento sobre todos os problemas de saúde que o fumo pode causar. Uma coisa é ignorar esse fato, outra é tomar conhecimento dele e, ainda assim, preferer manter o hábito do tabagismo.
Homens e mulheres começam a fumar porque querem. Mesmo adolescentes, tão antenados em tudo que os cerca, sabem que o cigarro é prejudicial à saúde. Se decidem fumar, seja por afirmação, rebeldia ou inconsequência, é uma decisão deles. Nunca vi ninguém chegar a um jovem e colocar um revólver na cabeça dele, obrigando-o a acender um cigarrro. E já vi muitos adolescentes recusarem o cigarro. Antigamente, fumar era sinônimo de rebeldia. Hoje em dia, não fumar é normal.
Tenho muitos amigos que fumam. Nenhum deles joga a responsabilidade do vício em outra pessoa. Admitem que são viciados, que sabem que o cigarro faz mal, que deveriam parar, mas não conseguem. Alguns ficaram anos sem fumar e voltaram, outros nunca nem tentaram parar e outros, em respeito a mim, evitam fumar quando estou no mesmo ambiente.
Jogar em cima do fabricante a responsabilidade pelo vício de um fumante é apenas não admitir falta de vontade de parar com o cigarro. Todos sabemos o quanto é difícil, mas não impossível. Conheço pessoas que pararam de fumar de um dia para o outro, após 40 anos como tabagistas. A decisão do Tribunal foi justa porque, se cada fumante que ficar doente receber uma indenização, se criará uma indústria de processos no País. Mas acredito, acima de tudo, que a Justiça mostrou que cada um tem de assumir responsabilidade perante seus atos, e não alegar desconhecimento de algo que, diariamente, por anos, vem sendo mostrado em todas as mídias como prejudicial à saúde.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Orgulho de ser brasileira

Hoje comemoramos os 510 anos do descobrimento do Brasil. Diferente do dia de Tiradentes e da inauguração de Brasília, comemorados com uma festa que atraiu um milhão de pessoas na capital do País, praticamente não vi nada que lembrasse o surgimento da nossa terra natal. Uma data importante e, por mais que muitos não queiram admitir, que enche de orgulho a maioria dos brasileiros.
Eu me incluo nessa maioria. Tenho muito orgulho de ser brasileira. Já morei fora e, quando as pessoas me perguntavam de onde eu era, sempre enchia o peito para falar que era do Brasil. Engraçado que a maioria pensava que eu era do Leste Europeu (por ser muito branca) ou dos países do Mediterrâneo (pelo sotaque). Um dia comentei isso com uma amiga e ela me disse que teria o maior orgulho de ser confundida com uma europeia, e que não hesitaria em mentir sua origem. Lembro da minha reação indignada: “Pois eu tenho muito orgulho de ser brasileira, e não faço a mínima questão de ser confundida com outro povo!”, exclamei.
Ufanismos à parte, acredito que temos sim de nos orgulhar do nosso País. Temos problemas? Muitos, assim como todos os países têm. Não devemos nos comparar com os piores, mas também não podemos achar que o resto do mundo é melhor do que a gente. Esse brio que não temos é que nos faz falta. Ao invés de nos orgulharmos e tentarmos mudar o que está errado, achamos mais fácil ficar reclamando, resmungando, criticando, mas sem fazer nada.
Criticamos os políticos mas, quando chegam as eleições, acabamos votando nos mesmos nomes que estão há séculos no poder e nunca fizeram nada de produtivo para esse País. Criticamos os corruptos mas, se temos a chance de subornar um guarda para nos livrarmos de uma multa, não hesitamos cinco minutos. Ou seja, falamos mal de todas as mazelas que existem no Brasil, mas não fazemos muito esforço para mudá-las.
O que muita gente não sabe é que somos olhados com muito carinho pelos estrangeiros de caráter. Somos vistos como um povo hospitaleiro, como um País que tem belezas naturais incríveis, como uma gente solidária e alegre, que luta para superar os obstáculos cotidianos com um bom humor contagiante. Sim, existem aqueles que nos enxergam como uma republiqueta cheia de corruptos e um paraíso do turismo sexual. Turismo esse que existe em todos os países, mas que não é mostrado na televisão com tanta frequência. Ou as pessoas acreditam que nos Estados Unidos, país com a maior indústria pornográfica do mundo, esse problema não existe?
Está mais do que na hora de nos orgulharmos do povo que somos, do País em que vivemos e das riquezas que possuímos. Não falo apenas de ficar batendo no peito e ser ufanista, mas também de agir para que as coisas mudem. Orgulho a gente sente quando consegue fazer aquilo em que ninguém mais acredita. E precisamos voltar a acreditar em nosso País. Portanto, parabéns pelos nossos 510 anos como Nação!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Caridade sem preconceito

Uma polêmica envolvendo os jogadores Robinho, Neymar e Ganso tomou conta dos jornais no início do mês, quando eles, na porta de uma entidade espírita que toma conta de 34 crianças com paralisia cerebral, se recusaram a entrar para distribuir ovos de Páscoa aos internos com a alegação de que entrar na casa seria agir contra seus princípios religiosos – os três são evangélicos.
Não vou falar aqui mal desta ou daquela religião porque, assim como não admito que falem da minha, não pretendo ofender a crença de ninguém. Mas posso falar dessas pessoas supostamente religiosas que, em nome de um “Deus” particular que somente elas têm no coração, tomam atitudes que contradizem frontalmente um dos princípios mais básicos de toda crença: a caridade.
Fazer caridade apenas com quem queremos, ou quando queremos, é bastante fácil. O que mais chocou na atitude dos jogadores foi que eles estavam na porta da entidade, ou seja, havia 34 crianças ansiosas esperando por aquela visita. Para consertar o que ficou muito feio para o time, essa semana os jogadores voltaram ao lar para entregar presentes às crianças. Um deles, Roberto Brum, chegou a levar toda a família para conhecer os internos.
Não sabemos se o que levou os atletas a retornarem ao lar foi a verdadeira caridade, ou uma jogada (sem trocadilho futebolístico) para que suas imagens voltassem a ser bem vistas pela mídia. Claro que nenhum torcedor vai deixar o time do coração por conta disso, mas o ocorrido havia deixado uma marca bastante negativa em todo o time santista – do qual metade, sem nenhum problema, entrou na casa no dia combinado para entregar os ovos.
Sempre fui da opinião que todo excesso é prejudicial. Também acredito que isso se aplica à religião. Para mim, de nada vale orar, rezar, bater no peito, acender vela, enfim, praticar todos os rituais existentes, e não ser capaz de praticar a verdadeira caridade fora da igreja ou templo religioso.
Conheço pessoas que vivem falando de Jesus, Deus, dizendo “amém”, “que bênção”, “glória a Deus”, e no entanto são incapazes dos mais elementares gestos de caridade com aqueles que não professam da mesma fé. O Deus em que eu acredito sempre pregou a bondade e a igualdade entre os homens – e não determinou que devo ajudar esse ou aquele dependendo da igreja que ele frequenta.
A atitude dos jogadores santistas foi lamentável, e um péssimo exemplo a quem os enxerga como ídolos. A maior prova de que eles mesmos sabem que agiram da forma errada foi seu retorno ao lar – seja lá por qual razão, eles quiseram mostrar que passaram por cima de suas ideologias religiosas. Quem mais ganhou foram as crianças, que tiveram momentos de alegria, em meio às limitações que a vida lhes impôs.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Estigma é pior que doença

Hoje é comemorado o Dia Mundial da Luta Contra o Câncer. Não pretendo falar aqui de números da doença ou de seus sintomas, mas de um lado muitas vezes esquecido: do estigma que cerca os pacientes do problema. Falo com conhecimento de causa bastante profundo: por duas vezes, aos 31 e aos 36 anos, tive câncer de mama. Hoje estou curada, mas faço exames de três em três meses para checar se não há recidiva. Não é fácil saber que, a cada 90 dias, minha vida novamente depende de resultados de exames, mas faz parte do protocolo da doença esse controle e, gostando ou não, tenho de passar por ele.
Acredito que, pior que o câncer, é o estigma que o acompanha, principalmente para as mulheres que passam pela quimioterapia e sofrem seus efeitos colaterais, ficam carecas, incham, perdem o brilho da pele. Essa semana assisti o seriado “Brothers & Sisters” e a personagem Kitty, que luta contra uma leucemia grave, começa a perder os cabelos durante uma festa. Sem dramalhão, o seriado mostrou a personagem se sentindo impotente, e ao mesmo tempo sendo corajosa ao decidir raspar a cabeça. Quando os cabelos começam a cair, Kitty chora e diz: “Não quero que as pessoas saibam que estou doente, não quero que elas me vejam assim”.
Tive o mesmo sentimento que a personagem. Sofri muito mais pela perda dos cabelos do que pela mastectomia. Não queria que as pessoas me olhassem careca, tanto que mandei fazer uma peruca assim que soube que perderia os cabelos. O interessante é que, depois que raspei a cabeça, o sofrimento acabou. Aliás, fiquei uma careca linda.
Percebi que meu medo era o que as pessoas iriam falar se me vissem assim. Como se a culpa fosse minha por estar doente! Porque uma mulher careca e inchada choca, e muito. Quando meus cabelos começaram a crescer estava começando a primavera e, por causa do calor, não conseguia mais usar a peruca. Percebia os olhares de soslaio quando entrava em algum lugar, sempre de cabeça erguida e sorrindo. Porque sempre tive o seguinte pensamento: estou doente, mas não morri, e vou viver normalmente, dentro das minhas possibilidades.
Algumas pessoas me admiravam e até mesmo vinham falar comigo e prestar solidariedade, sem sequer me conhecerem. Mas outras, fieis ao estigma de que pacientes com câncer devem ficar em casa, me olhavam de cara feia, como se fosse um insulto eu estar me divertindo em um bar ao invés de deitada na cama. Lembro de um dia em que um jovem de uns 18 anos externou isso em um tom de voz meio baixo, mas alto o suficiente para eu o ouvisse. Não tive dúvidas em me virar e dizer que, tanto quanto ele, eu tinha o direito de estar naquele bar, de tomar um chopp e, sim, de me divertir muito!
Essa visão do paciente moribundo precisa ser mudada. O doente de câncer, além do tratamento, merece um olhar de respeito, e não de pena ou de crítica por estar se divertindo. Quando estava doente, criei uma frase que me ajudou muito: como não quero que o câncer me domine, deixo que minha felicidade o enfraqueça. Eu venci a doença, e espero, um dia, que todos os pacientes consigam vencer o estigma que nos cerca.

quarta-feira, 31 de março de 2010

A cultura da inadimplência

A inadimplência já faz parte da cultura brasileira. Estamos acostumados a dever e nos endividarmos cada vez mais, sem pagar as dívidas já existentes. Quando falo “estamos” me refiro àqueles que, mesmo sabendo que não podem comprar algo, não se importam em se afundar ainda mais em débitos que, no final das contas, ou serão perdoados ou mesmo não pagos.
Isso é bem fácil de notar em todos os setores. Prefeituras renegociam dívidas de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), dão descontos gigantes e ainda parcelam o saldo devedor, tudo para que o munícipe não fique inadimplente. Grandes lojas fazem a mesma coisa no fim do ano: chamam os devedores, reduzem o débito muitas vezes pela metade, dividem essa metade em intermináveis parcelas sem juros, e ainda tiram o nome dessas pessoas do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito).
E nas escolas? O aluno inadimplente pode continuar a frequentar as aulas mesmo que não pague suas mensalidades. Quando falamos de crianças, a justificativa é de que elas não podem ser constrangidas pelos erros dos pais. Mas estudantes universitários também fazem a mesma coisa. Alguns, por pura necessidade mesmo. Outros, porque sabem que podem assistir as aulas sem a menor chance de serem constrangidos. Não deixam de sair, ir a baladas, têm carro, mas a mensalidade sempre é deixada de lado.
Poderia citar muitos outros exemplos. O ponto central é que dever no Brasil não é um grande problema. Estou falando aqui dos caloteiros por excelência, aqueles que não pagam porque sabem muito bem que nada acontece efetivamente se ficarem com a dívida em aberto. Até porque, os verdadeiramente honestos, buscam de qualquer maneira pagar seus débitos. Vendem o carro, diminuem as saídas, não viajam, deixam de comprar supérfluos, enfim, fazem de tudo para manter o nome limpo.
Em compensação, devedores contumazes estão se lixando para seus credores. E aí me pego analisando uma situação paradoxal: enquanto aos que não pagam são oferecidas milhões de vantagens, aos pontuais com suas dívidas nada é dado. Nunca ganhei um desconto de 50% em nada porque paguei a conta em dia. As prestações do meu carro continuam sempre com o mesmo valor, independente de eu pagá-las na data correta. Se eu atrasar um ou dois dias, os juros são enormes. Mas talvez, se eu atrasar três parcelas e tente negociar o débito, me seja oferecido um bom desconto.
Não estou pregando aqui que todo mundo comece a dar calote. Muito pelo contrário, sempre preguei que estar em dia com as contas é a melhor coisa do mundo, porque sei que meu nome continua limpo. E, mesmo não sendo tão velha, ainda sou do tempo em que ter o nome limpo na praça é obrigação, e não motivo de orgulho. Mas acho que está na hora de pararmos de passar a mão na cabeça dos devedores, e sermos mais rígidos com as regras. Porque, no final, quem paga a conta são os honestos. E isso, no meu entender, não ajuda nem um pouco em melhorar essa cultura de inadimplência que assola nosso País.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Salário baixo, trabalho ruim

Existe uma lógica perversa que habita a mente de boa parte do empresariado brasileiro: pagar pouco e exigir muito. Como o mercado de trabalho está saturado em alguns setores, a lógica se mostra bastante eficaz naquelas profissões em que a procura é maior que a demanda: está insatisfeito, tem outro para trabalhar em seu lugar.
O que o empresariado não percebeu ainda é que, quanto mais baixo o salário, pior será o desempenho do funcionário. Essa também é uma lógica fácil de se verificar. O achatamento de salários em todos os setores fez surgir uma categoria de funcionários que, por receberem pouco, se dedicam pouco. Mais agravante que isso é o fato de que, como o salário é baixo, as vagas acabam sendo ocupadas pelos menos qualificados. E os menos qualificados, como sabemos, acabam desenvolvendo um serviço abaixo do que a vaga exige, em muitos casos.
Um bom exemplo disso são os bancos. Sou filha de um gerente aposentado do Banco do Brasil, e meu pai é da época em que o salário compensava as horas de trabalho. Compensava e também exigia dos funcionários um alto grau de conhecimento das operações bancárias. Hoje os salários dos bancários estão achatados, assim como a maioria das áreas. Muitos funcionários estão ali apenas enquanto terminam a faculdade e, quando isso ocorre, deixam as agências para se dedicar a uma carreira mais lucrativa.
Nada condenável nisso, afinal, todo mundo quer progredir na vida. Porém, como o funcionário sabe que ali não vai ficar, não se preocupa sempre em fazer um trabalho excepcional ou ter um conhecimento melhor daquilo que está fazendo.
Esta semana ocorreu um fato com um colega que mostra bem o que estou dizendo. Ele precisava fazer uma transferência bancária do Brasil para os Estados Unidos. Procedimento simples, mas que se tornou complicado porque a gerente da agência não se deu ao trabalho de verificar se era possível fazer a transação e já informou que somente poderia fazer um câmbio (a uma taxa de R$ 52). Interessante é que ela ainda desdenhou da mulher do colega quando esta perguntou se poderia fazer a transferência, já afirmando em tom irritado que isso não existia.
Talvez, se ela fosse mais motivada, tivesse verificado que a transferência existe e pode ser feita a qualquer banco. Por incompetência, má vontade ou preguiça (não sei dizer o que exatamente), ela fez o tal “câmbio”, enviando o dinheiro a uma outra agência que não tinha nada a ver com quem o receberia, e com prazo de apenas dois dias para a retirada. Assim, um dinheiro que poderia ser depositado direto em uma conta teve toda essa movimentação desnecessária.
Será que, se ela recebesse um salário melhor, trabalharia com todo esse desconhecimento do próprio serviço? Ou ela se empenharia em resolver o problema da melhor maneira? Ou será que a agência teria alguém mais qualificado para o cargo se o salário fosse maior?
Não quero justificar a atitude de gerente, até porque eu acredito que, se você está insatisfeito com seu salário, deve procurar coisa melhor mas, enquanto estiver nele, deve dar o melhor de si. Vi uma entrevista de um gestor de Recursos Humanos em que ele dizia exatamente isso, e exemplificava com os jogadores de futebol: todos eles começam em escolas de base, recebendo, quando muito, um salário mínimo. E nem por isso fazem gol contra.
Assim deve ser a mentalidade de todo trabalhador. Também acho que deveria ganhar mais do que ganho, e nem por isso chego ao jornal pensando em fazer um trabalho malfeito. Sempre penso o seguinte: é meu nome que está estampado na página. Será que com isso não vou conseguir algo melhor um dia? Ou prefiro me juntar à massa dos que reclamam, se acomodam e não fazem nada para mudar?
Tanto trabalhadores quanto empresários precisam mudar essa mentalidade escravo-senhor de engenho. Devo receber de acordo com o que faço e, se for o caso de ganhar mais, merecer esse aumento. Em contrapartida, o empresariado deve começar a enxergar que, quanto melhor o salário, melhor o funcionário e, por consequência, melhor o seu produto.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Desespero em julgamento

Essa semana o País ficou estarrecido com a notícia de uma mãe que, em puro desespero, acorrentou seu filho de 13 anos para que ele não pudesse sair de casa e usar crack, umas das drogas mais fortes que existem atualmente, e com maior poder de dependência em pouco tempo. A mãe, que responderá um processo em liberdade pela acusação de maus tratos, recebeu ofertas de três clínicas particulares para internar o adolescente, que deveria ontem ser encaminhado a uma delas para iniciar sua desintoxicação.
As reações à atitude dessa mulher variaram da mais profunda repulsa à compreensão. Educadores, assistentes sociais e outros pais levantarem em coro vozes indignadas por ela ter acorrentado o filho que, quando drogado, a ameaçava fisicamente e cometia roubos na vizinhança para manter o vício. Por outro lado, muitas mães compreenderam sua tentativa de manter o filho em casa e impedir que ele voltasse a usar crack.
O problema da droga está aí, só não vê quem não quer. Semana passada também ficamos chocados com a brutal morte do cartunista Glauco e seu filho Raoni, por um jovem de 24 anos também viciados em drogas, no caso a cocaína. A cada semana, se lermos atentamente os jornais, veremos casos de violência envolvendo jovens viciados. Porém, somente nos damos conta da real gravidade do problema quando acontece um fato isolado extremamente grave, como os dois citados.
A droga destrói não somente o viciado, mas sua família. Não estou falando apenas das substâncias ilícitas, e incluo nesse montante o álcool. Quem tem um alcoólatra na família também sabe como é difícil lidar com a pessoa. Muitos, quando sóbrios, são pessoas maravilhosas, alegres, calmas, que proporcionam uma convivência tranquila e cheia de alegria. Porém, basta apenas alguns goles para que se tornem agressivos, autoritários, briguem por qualquer motivo e insuportáveis.
Não tenho dentro de minha casa esse exemplo, mas tenho em minha família. E não julgo uma mãe que acorrenta um filho ou uma esposa que desanima de tentar ajudar um marido alcoólatra. A convivência com essas pessoas não é fácil. Para aguentar um drogado ou um bêbado tem de ter muita paciência.
Tive um amigo que morreu aos 35, depois de ter ficado nove em uma cadeira de rodas, totalmente incapacitado, após um derrame causado pelo uso excessivo de drogas. Lembro de ver esse meu amigo, pela janela da casa do meu avô, aplicando cocaína na veia no quintal de casa. Os pais fizeram de tudo para que ele se curasse: mudaram de cidade, venderam a casa, internaram nas melhores clínicas. Quando ele sofreu esse derrame e ficou na cama, muitas pessoas achavam que a mãe se revoltaria. Pelo contrário. Ela costumava dizer: “Por pior que ele esteja, pelo menos agora eu sei que está em casa, sem correr o risco de levar um tiro por de um traficante”. Parece uma atitude cômoda, mas acredito que era o alívio de quem, apesar de ter tentado tudo, não havia conseguido tirar o filho do vício.
Não sei a história toda dessa mulher, mas imagino que a dor de prender seu filho com certeza foi maior que seu desespero. Porém, quando não há mais opções, tomamos muitas vezes atitudes que jamais imaginaríamos em uma situação normal. Fácil criticar essa mãe e dizer que ela foi cruel. Difícil é se colocar no lugar dela, sem apoio nenhum para buscar uma saída. Está na hora de pararmos de culpar os pais pelo uso de drogas, e vermos que os filhos, muitas vezes, escolhem esse caminho, seja pela curiosidade, seja por vontade mesmo. Essa mãe, que já sofreu tanto, não merece mais esse julgamento.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sabe onde fica a seta?

Uma das primeiras coisas que aprendemos quando vamos tirar a carteira de motorista é a dar seta. Ato simples, fácil, que não exige grandes malabarismos nem um conhecimento profundo de mecânica. Aliás, muito mais fácil no começo aprender a dar seta do que coordenar o movimento dos pés no freio e acelerador. E não estou falando isso porque sou mulher, mas pura e simplesmente porque qualquer pessoa, quando começa a aprender algo, sente dificuldades e depois as supera.
Acredito que todos concordamos: dar seta é muito fácil. Então, por que os motoristas insistem em simplesmente ignorar esse equipamento e jamais usá-lo? Esse questionamento eu me faço todos os dias enquanto venho de Piracicaba para cá. É incrível como muitos motoristas simplesmente mudam da direita para a esquerda na pista sem darem nenhum sinal. Azar de quem está atrás (no caso eu!)!
E esse descaso não ocorre apenas na pista, onde o perigo de um acidente aumenta consideravelmente por causa da alta velocidade dos veículos. Esse é um problema grave principalmente em cidades do interior, onde os motoristas acreditam que a via é exclusividade de cada um, e trafegam como se atrás ou dos lados não existisse ninguém.
Parar sem dar seta, virar a esquina sem avisar, passar da via esquerda à direita em uma avenida sem usar o precioso equipamento parece que não é preocupação da grande maioria. Assim, o motorista que está atrás ou ao lado tem de adivinhar o que o colega vai fazer. Ou seja, dirigimos por nós e pelos outros, procurando antecipar o que pode acontecer o tempo todo.
Não é à toa que o trânsito brasileiro está ficando a cada dia que passa mais caótico. A justificativa de que o aumento de carros provoca isso não é mais o principal argumento para quem busca explicar esse caos. Especialistas em tráfego esquecem que o comportamento dos motoristas contribui quase que completamente para esse quadro.
Usei o exemplo da seta porque é um dos mais comuns que vejo. A impressão que tenho, quando estou dirigindo, é que a seta, para muitos motoristas, é um item opcional, perfeitamente dispensável como o isqueiro ou o cinzeiro. Virar bruscamente ou passar de uma pista a outra sem sinalizar pode parecer um erro simples na direção, mas que pode causar até mesmo a morte do colega ao lado. Se o uso de um equipamento tão simples é explicado na primeira aula de direção, é óbvio que ele é um dos atributos mais importantes do bom motorista. Se conseguimos coordenar os pés, não me parece impossível coordenar as mãos ao volante. Sabe onde fica a seta em seu carro? Então use-a!