quinta-feira, 8 de julho de 2010

Síndrome do "coitadinho"

A Copa do Mundo está acabando e, pela primeira vez em sua história, não estão presentes na final nenhum dos famosos campeões e sempre favoritos Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. No jogo em que a Alemanha foi eliminada, a torcida para a Espanha dentro da redação era quase unânime. O motivo: a Espanha nunca foi campeã do torneio. Ou seja, o fato de a Alemanha ter feito uma campanha que encantou os admiradores do esporte não foi levado em conta pelos torcedores do País Basco.
Durante essa Copa, vi muitas pessoas justificarem suas preferências com argumentos que nada tinham a ver com futebol. Nos confrontos com os Estados Unidos, o comentário era que eles não merecem porque “afinal, já são um povo rico e não merecem ganhar esse título”. Em contrapartida, seleções que não têm nenhuma tradição no futebol, como os africanos, tinham uma torcida enorme, principalmente quando jogavam contra algum país desenvolvido economicamente. Novamente, a emoção tomava conta das pessoas: “Esse é um país pobre, merece ganhar o jogo”.
O povo brasileiro tem mania de torcer por quem é menos privilegiado, principalmente no lado financeiro. Muitos chamam esse comportamento de “síndrome do coitadinho”. Quando torcemos, normalmente a escolha é por aquele que “precisa mais”. Se ele fez por realmente merecer não importa, o que importa é que ele tem mais necessidade que seu concorrente.
Quando havia o Show do Milhão, e o candidato ao prêmio de R$ 1 milhão era humilde e dizia que queria ganhar apenas R$ 50 mil para ajudar a mãe (ou o pai, o irmão, reformar a casa), Sílvio Santos o ajudava de todas as formas para que ele conseguisse ganhar a quantia almejada. Em compensação, lembro de uma vez em que um engenheiro disse que queria ganhar R$ 500 mil para comprar uma casa em Búzios. Minha mãe falou: “Esse não merece ganhar, já tem dinheiro, nem devia estar no programa”. O fato de ele ter sido sorteado como todo mundo e estar ali não contava. O que contava era que ele tinha dinheiro. Assim, não merecia o prêmio.
Essa visão de “coitadinho” nos faz esquecer que prêmios e conquistas devem ser dados a quem faz por merecer, e não apenas a quem tem menos condição financeira. Muitas pessoas de sucesso conseguiram o que têm na base do trabalho, do estudo, do esforço, e não do assistencialismo. Se elas hoje não precisam de prêmios, foi porque lutaram para sair da necessidade, e não ficaram se fazendo de “coitadinhas” para “merecerem” a caridade alheia. O merecimento vem do esforço, e não da pena. Enquanto continuarmos torcendo apenas pelos fracos, jamais nos espelharemos nos fortes. E jamais cresceremos como eles.

Nenhum comentário: